Abigai

Novembro 06 2009

Se eu tivesse que escolher uma palavra, esta seria a Saudade...

 

saudade (a-u)*

s. f.
1. Lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que nos vemos privados.
2. Pesar, mágoa que essa privação nos causa.

 

 

Porquê?

Filha de pais portugueses, nasci e vivi metade da minha vida no estrangeiro. Desde muito pequena que a conversa era sempre a mesma: a minha pátria era Portugal, eu era portuguesa e em casa era proibido falar outra língua.

Em paralelo com os meus estudos e escolaridade obrigatória, estudava Português numa associação e passei todos os exames ad-hoc de história, língua e cultura portuguesa.

Quando os meus pais se reformaram e decidiram regressar a Portugal, deram-me a possibilidade de escolher ir ou não com eles. Não tive qualquer dúvida. De armas e bagagens mudei-me para o pais que era o meu, sem olhar para trás, à procura do lugar que todos os anos, em final de Agosto, me deixava Saudades, deixando os meus irmãos, cunhados e sobrinhos com alguma mágoa mas sem qualquer hesitação.

Mas que Saudades eram essas que sentia?

Saudades de um lugar que mal conhecia, um lugar onde passava férias e onde não havia preocupações nem obrigações?

Na realidade, Portugal era-me totalmente desconhecido.

Visitar lugares, passar o dia na praia, ter sol em abundância... será isso conhecer e amar uma pátria?

Não era. Seria uma ilusão? Provavelmente. Um ideal, uma fantasia, nunca uma escolha com conhecimento de causa.

Encontrei um país desconhecido, uma realidade diferente da esperada, sem raízes, sem memórias e sem amigos. A adaptação foi difícil. Percebi então que nem a língua dominava e voltar a estudar foi penoso. Mas o tempo foi passando e aprendi a conhecer e amar a vida em Portugal.

Os meus pais sentiram o mesmo, regressar ao país que tinham deixado há mais de 30 anos foi para eles também um choque, já não era o mesmo Portugal com a agravante de não ter assistido às mudanças e evolução.

Saudades do meu país de origem? Claro que tinha. Regressar? Nunca!

Portugal é mesmo a minha pátria, mas foi com o tempo que percebi isso, e por mais dificuldades que o país atravesse, não admito sequer que digam mal de Portugal. É verdade que nem tudo são rosas, que é preciso um Portugal melhor, mas não é também verdade que noutros países pensam o mesmo?

Saudades da família? Claro que sim.

Mas acima de tudo, saudades das Saudades que sentí ao longo de 18 anos. Saudades do pais idílico que criei na minha mente. As Saudades que tinha antes da mudança eram bem mais sentidas, eram saudades duma realidade inexistente, dum país ideal, duma pátria que reunia a divisão que sente qualquer emigrante.

As Saudades são mais o que idealizamos ter do que o que sentimos ter perdido.

Saudades de ter um objectivo, saudades de um sonho...

Sei que não voltarei a sentir as mesmas Saudades, o que sinto é falta da família, não de um pais idílico e perfeito.

Conheço o país que deixei, não conhecia o país que encontrei.

 

 

* definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

 

publicado por Abigai às 08:41

Conseguiste dizer o que sinto,sem tirar nem por nada.

Obrigado

Jorge
Jorge Soares a 8 de Novembro de 2009 às 19:34

Olá Anabela,

Antes de mais obrigada pelo teu comentário no meu blog, que foi bastante útil.
Agora quanto a este post, que gostei muito, penso que sou uma sortuda por nunca ter que tomar uma decisão dessas. Não deve ser fácil deixar o conhecido para ir para o desconhecido. Os meus pais tb etiveram alguns anos na Alemanha, mas felizmente nunca me levaram nem a mim nem à minha irmã. Talvez por isso tb tenham regressado ainda nós éramos muito pequenas.

Paula
Essência a 10 de Novembro de 2009 às 09:44

Deixar o conhecido pelo desconhecido foi o mais fácil, pois era um sonho que iria finalmente conseguir realisar. Pior foi perceber que este país idílico que buscava não existia, foi como perder algo dentro de mim...
Abigai a 10 de Novembro de 2009 às 10:38

Olá Anabela
Adorei este post - eu que nunca saí de Portugal! (a não ser por períodos relativamente pequenos em estudos) mas que me tocou profundamente pela forma como consegues transmitir tão claramente o que te vai na alma!
beijos grandes
energia-a-mais a 13 de Novembro de 2009 às 21:40

Olá Teresa,
Obrigada pelo teu comentário.
Nem sempre é fácil transmitir o que vai na alma... vou tentando. Viver entre 2 mundos, 2 culturas diferentes não é fácil, ainda mais quando até a família está em ambos os lados...
Beijinhos,
Anabela
Abigai a 14 de Novembro de 2009 às 10:43

Olá Anabela,

Admirei a forma como vigorosamente transmitiste o teu estado de espírito e de alma.
A dualidade entre os dois mundos.

Beijinhos susana miranda
susana miranda a 14 de Novembro de 2009 às 20:06

Porque foi a primeira palavra do meu filho, e de nada querer dizer, diz-me muito...
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