Abigai

Março 25 2010

 

 

O meu filho não é vítima de bullying, não tenho a mínima dúvida disso!

 

Tem amigos excepcionais, protectores, sempre atentos ao que se passa com ele, defendendo-o sempre dos que tentam aproveitarem-se da ingenuidade e inocência dele.

 

O G. dá uma importância fenomenal aos afectos descorando os bens materiais, sendo capaz de dar tudo o que tem e o que não tem em troca de uma qualquer demonstração de sentimentos.

 

Na passada segunda-feira fui contactada pelo ATL que frequenta porque o G. não se sentia bem, queixava-se de um aperto no coração e de falta de ar.

O ano passado, foram efectuados vários exames, inclusive um holter de 24 horas, para despistar problemas cardíacos denunciados por uma electro-cardiograma de rotina. Foi vistos pelos melhores cardiologistas pediatricos, foram feitos vários testes e a conclusão deixou-me, felizmente, mais descansada. Tem uma pequena assimetria de uma das válvulas, sem prejuizo do bom funcionamento do coração, não sendo por isso, necessária qualquer limitação na actividade física ou desportiva.

 

O pai foi buscá-lo ao ATL e de facto estava ofegante, o coração batia a uma velocidade impressionante, estava tenso e angustiado e teve dificuldades em subir os degraus quando chegou a casa.

"mais vale morrer do que viver assim"

Ficamos em choque. O que se teria passado para pronunciar tais palavras?

O G. é muito fechado sobre si, mas após muita insistência, muita paciência, acabou por confessar o que o atormentava e de imediato, todos os simptomas desapareceram.

Ainda falei com o pediatra, mas aparentemente não passou de um ataque de ansiedade que passou quando desabafou.

 

Pois é. Imaginamos logo o pior.

Mas o pior para uma criança de 9 anos pode, para nós, não ser nada. E, de facto, o que para nós é apenas uma brincadeira, foi sentida por ele como algo insuportável, angustiante, como uma perda iminente.

O B. é um dos melhores amigos dele, jogam futebol juntos na escola, ajuda-o nos trabalhos de casa no ATL, vem às vezes a casa para brincarem juntos, etc. É um menino da mesma idade mas mais desenvolvido, mais maduro, com excelentes resultados escolares e, sem dúvida, muito amigo do G. De há alguns meses para cá - não consegui saber desde quando - o B., sempre que passa pelo G., dá-lhe um pequeno encontrão para pegar com ele, mas sempre na brincadeira, para mim e sem dúvida para ele, sinal de amizade, mas interpretado pelo G. como "agressão", mantendo contudo as mesmas cumplicidades e actividades.

Além de não ter sido capaz de lidar com a "brincadeira", o G. guardou este sentimento para ele, não disse nada, até que, na passada segunda-feira, não aguentar mais a pressão.

A muito custo contou o que se passava, admitiu brincar o o B. como sempre o fez, que o B. nunca o magoou mas que não aguentava mais os encontrões... "ele já não gosta de mim..." disse ele.

Ou seja, o que para o B. é sinal de cumplicidade, de amizade, para o G. é sinal de perda, perda de um amigo, de um afecto.

Para quem já tem uma baixa auto-estima, o mais pequeno sinal de perda, pode traduzir-se num problema emocional muito grande. O G. tem constantemente a sensação de carregar os problemas do mundo às costas e o facto de não se abrir, de não falar dos seus tormentos, desencadeia um rio de emoções difícil de controlar.

 

Não foi vítima de bullying, não. Foi vítima de uma fraca auto-estima e de não saber interpretar um sinal de afecto.

O que será dele no próximo ano, numa escola maior, com mais crianças e crianças mais velhas?

O que será dele num meio escolar mais complexo?

Hoje, numa escola básica, com a protecção dos colegas, dos funcionários e da professora, não soube gerir os problemas emocionais que o atormentaram, como será mais tarde, como irá reagir?

E nós, pais, iremos perceber a tempo de o ajudar?

 

 

publicado por Abigai às 10:01

Março 16 2010

Hoje, ao ler este post e este, recordei os tempos em que as minhas noites eram de desespero devido aos terrores nocturnos do G., e como agora, por vezes, até se tornam divertidas com os seus episódios de sonambulismo.

 

Os terrores nocturnos, muito diferentes dos pesadelos, são uma alteração do sono frequente em crianças, em que há um despertar abrupto e acompanhado de sinais de ansiedade intensa, geralmente nas primeiras horas de sono.

A criança acorda em sobressalto, uma ou duas horas depois de ter adormecido, com um grito de pânico a que se segue um período em que manifesta grande ansiedade, com o olhar fixo, sudação, respiração rápida, aceleração dos batimentos cardíacos e movimentos descoordenados. A agitação dura alguns minutos e não cede às tentativas de conforto por parte dos pais.

No terror nocturno, a criança grita – muitas vezes um autêntico grito de terror, mas ao contrário do pesadelo, em que o próprio está assustado, quem fica mais receoso, neste caso, são os pais -, senta-se, está agitada, parece estar a lutar contra monstros ou «possuída», às vezes quase alucinada. Mas não está acordada, como nos pesadelos.
Quando o episódio termina, a criança volta a adormecer e não se recorda do que se passou, quer seja acordada a seguir, quer na manhã seguinte.
 

O G. passou por uma longa fase de terrores nocturnos, ver um filho a gritar, assustado, a espernear, a bater nas paredes, é simplesmente assustador, e não poder fazer nada para o reconfortar ou aliviar, leva-nos a um sentimento de impotência desesperador.

Até aos 7 anos o G. teve regularmente terrores nocturnos.

As nossas noites eram de desespero e não raras foram as vezes em que me sentei no chão, junto à caminha dele, a chorar...

Aos poucos os episódios foram diminuindo até que cessaram por completo dando lugar a episódios de sonambulismo, menos assustadores e por vezes até divertidos.

A primeira vez foi curiosa porque não percebi de imediato que ele estava a dormir, deambulando pela casa resmungando comigo num monólogo incompreensível.

 

É mais frequente entre as crianças e, tal como os pesadelos, são parassónias, fenómenos que ocorrem durante o sono e que não o interrompem.

O sonambulismo acompanha-se de movimentos na cama, falar nocturno, deambulação mais ou menos complexa e não é isento de riscos, havendo histórias de indivíduos que sofrem acidentes durante estes episódios.

Durante um episódio de sonambulismo o estado de alerta fica reduzido e verifica-se uma ausência relativa de resposta à comunicação com os outros: um "olhar vazio".
Normalmente ocorrem no primeiro terço do período de tempo de sono (durante o sono profundo), é difícil acordar o sonâmbulo e este pode até ter uma reacção violenta.
Já acordado é muito provável que o sonâmbulo não tenha memória do que sucedeu.

Durante o episódio é comum que a criança fale ou pronuncie algumas palavras incompreensíveis, murmurando, resmungando ou dizendo palavras que normalmente não utiliza.
Durante os "passeios" nocturnos involuntários, a criança pode limitar-se a dar algumas voltas no interior do seu quarto ou a levantar-se e ficar sentada na cama olhando em seu redor, com expressão de admiração ou de surpresa.
No entanto, os episódios também podem ser mais perturbantes: a criança pode começar a correr e a gritar. 

 

Acontece regularmente com o G., sobretudo quando o dia foi mais agitado.

Segundo a pedopsiquiatra que o acompanha, é frequente em crianças hiperactivas, sendo que os episódios tendem a desaparecer com o tempo podendo contudo prolongarem-se até à adolescência.

Em suma, ainda tenho alguns anos de diversão nocturna pela frente.

 

publicado por Abigai às 14:51

Março 12 2010

Às quintas-feiras, vou com o meu G. à sede do agrupamento escolar à consulta semanal com a psicóloga educacional. Até aí tudo bem.... Mas enquanto o G. está com a psicóloga fico a aguardar na sala de espera... por vezes com outras mães.

Faço alergia a salas de espera.

O primeiro sintoma é o sono.

Fico com tanto sono que mal consigo manter os olhos abertos!

Nem com um livro evito bocejar a cada segundo. Os sessenta minutos de consulta parecem-me intermináveis...

 

Esta última quinta-feira fui premiada com a presença de uma outra mãe, também ela à espera de um filho e uma filha, também com dificuldades de aprendizagem, embora tenha ficado com a impressão que, naquele caso, seja nível social em que estão inseridas, o maior travão para uma adequada aprendizagem.

 

Não gosto de tirar conclusões precipitadas até porque, a julgar pelo comportamento do meu G. e visto de fora, a maioria das vezes, suponho que pensem que não o sei educar.

Mas, apesar de ser muito irrequieto, de não conseguir estar sentado numa sala de espera, o G. é educado, não insulta ninguém - muito menos a própria mãe - nem se diverte a tecer comentários do género irrepetível sobre os transeuntes.

 

O que me chocou não foi o baixo nível social daquela família. Penso que ninguém faz por estar naquela situação, pode eventualemente é nada fazer para tentar sair dela, mas isso é diferente. O que me chocou foi a forma descontraída que aquela mãe tinha perante o mau comportamento dos filhos, o sorriso rasgado ao dizer que não tinha mão neles nem paciência.

O que me chocou foi ver uma senhora da minha idade, com três filhos, sem trabalho, com marido desempregado, queixar-se que não consegue levar os filhos todos à escola a horas porque a mais velha já anda na escola preparatória e não pode estar em dois lados ao mesmo tempo - até aí tudo bem - uma vez que o marido fica de manhã na cama a dormir porque saiu até tarde na noite anterior e o pobre precisa de descansar.

O que me chocou foi ver uma senhora da minha idade, a contar como teve a terceira filha sozinha em casa porque o marido não teve tempo de a levar a maternidade e os bombeiros só chegaram depois do nascimento.

O que me chocou foi ver uma senhora da minha idade, sem dentes na frente, dizer que lavar os dentes não é para ela, que prefere esperar que a segurança social lhe "pague dentes novos, daqueles que depois não saem...", que já fez o pedido e entregou orçamentos, que já foi aprovado e só está a aguardar ser chamada, porque "se tenho direito, não vejo porquê havia de ter vergonha de pedir...".

O que me chocou foi ver uma senhora da minha idade, dizer que quando chegam a casa, manda os filhos fazer primeiro os deveres e só depois podem jogar computador ou PlayStation... E dizer "ainda ontem ele estava a fazer contas... sabe aquelas contas em pé com números, mas eu não sei ajudar... Se ele diz que está feito é porque está..."

O que me chocou foi ver uma senhora da minha idade, com aquela simplicidade e totalmente desinibida, contar a vida que leve, a educação que dá aos filhos, foi perceber que a pobreza não é apenas económica.

 

O que me deixou preocupada foram aquelas crianças.

Pelo exemplo que levam, e se nada for feito por eles, se não tiverem ajuda, se não se instruirem, mais tarde levarão um vida igual aos pais...

Afinal, está visto que mesmo que não trabalhem têm tudo o que precisam, talvez mais até do que os outros....

O que me deixou preocupado foi perceber que aquelas crianças, apesar de terem computadores, PlayStation, boas roupas, bom calçado e aparentemente não lhes faltar nada, não têm as minhas oportunidades que o meu filho tem.

O que me deixou pensativa foi o nome dado ao rendimento social de inserção... Qual inserção? Não questiono o facto de precisarem ou não de apoio económico, naquele caso pareceu-me evidente, mas não deveria ser feito alguma coisa além do apoio financeiro?

 

publicado por Abigai às 13:58

Março 09 2010

Ontem à saída do ATL...

 

- Mãe, sabes a Beatriz?

- Sim filho....

- Acabou comigo...

- Acabou? Mas porquê?

- Não sei... não disse, só disse que não quer mais ser minha namorada...

- Oh, filho e tu?

- Deixa-lá, não tou triste....

- Não filho?

- Não, quando for para o 5º ano, vou conhecer mais meninas...

 

 

Desgosto amoroso ou planeamento do futuro?

Não há dúvida que foi um namorico muito rápido....

 

publicado por Abigai às 08:43

Março 02 2010

- Mamã... sabes a Beatriz?

- Sei, filho...

- Eu perguntei-lhe se queria namorar comigo...

- Foi? E então?

- Ela disse que sim...

- E depois?

- Depois eu disse-lhe que também queria namorar com ela...

- Então agora são namorados?

- Sim... mas não estamos juntos...

- Não? Como assim?

- Não estamos na mesma carteira na sala.

- Ah... mas estão juntos no recreio, não?

- Não. Eu vou jogar à bola com os meus colegas e ela fica na sala a brincar...

- Mas então quando é que namoram?

- Oh mãe! És mesmo dah!... Nós ainda não temos idade!

 

E toma! Afinal, até tem juizo, o rapaz!

 

publicado por Abigai às 09:54
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Porque foi a primeira palavra do meu filho, e de nada querer dizer, diz-me muito...
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