Abigai

Novembro 05 2010

 

Educar é difícil.

Educar quando os filhos passam mais tempo fora de casa é mais difícil ainda.

Com os pais a trabalhar durante o dia, as crianças passam a maior parte do tempo com outros educadores ou crianças e, sob a influência e/ou exemplo destes torna-se complicado encontrar um ponto de equilíbrio, evitar conflitos de ideias e até mesmo incutir valores.

Fui educada num país onde a intolerância e o racismo são marcantes e, apesar de integrar-me perfeitamente e aparentemente não destoar, sempre senti orgulho em afirmar-me portuguesa, o que, em algumas ocasiões, trouxe-me alguns dissabores.

Não fui vítima de racismo mas senti por diversas ocasiões o que é ser alvo de preconceito e intolerância. Existe uma tendência em generalizar o que se vê em determinado grupo ou nacionalidade. Lembro-me de, em conversas com colegas de escola sobre profissões, ver daqueles sorrisos trocistas que, julgando saber responder a tudo, diziam ah… deve ser trolha o teu pai, não? Nessas alturas, dava-me um prazer indescritível mostrar os brincos que usava ou os anéis ou as pulseiras e dizer não… o meu pai é ourives, foi ele que fez estas jóias, gostam? E anos mais tarde, quando o meu pai foi condecorado com a medalha de honra do trabalho, o gozo foi maior ainda.

Por isso e muito mais ainda, tento a todo o custo incutir valores ao G. que para mim são importantíssimos: tolerância, respeito, compreensão, aceitação, indulgência, etc.

Fiquei satisfeita por saber que tinha crianças deficientes na turma dele, a convivência com realidades diferentes, com dificuldades diferentes, haveria de ajudar a entender o que é aceitar, compreender e respeitar da mesma maneira, quer se seja branco, preto, baixo, alto, gordo, magro, portador de deficiência ou não. Pelo menos assim pensava…

Quanto mais o G. cresce, mais dificuldades sinto. Conheço a maioria das mães dos colegas dele, embora pouco conviva com elas. Não aparentam ser intolerantes ou preconceituosas nem tão pouco elitistas. A verdade é que ultimamente, o G. tem tido algumas conversas para mim irritantes sobre os colegas deficientes e, inevitavelmente, pergunto-me de onde virão tais influências. Da minha parte, estou convicta que não.

Dos colegas não sei. Mas se é dos colegas, não deveriam os pais destes ensiná-los a serem compreensivos com quem tem certas e determinadas dificuldades mas que não deixam de ser crianças como eles, com direitos e deveres, com necessidades de convívio, de carinhos, de atenção. E quem fala de deficientes, fala de outras etnias, nacionalidades, crenças, etc…

O G. é hiperactivo. Tem dificuldades de aprendizagem e é bastante imaturo para a idade. Mais do ninguém deveria entender que não se pode discriminar. Sei que ainda é muito novo, que é difícil para ele colocar-se no lugar do outro, que é complicado fazer o paralelismo com a situação dele e com experiências que tem vivido, também elas de discriminação, mas, para mim, esta semana tem sido esgotante.

Não é esta a educação que lhe dou, não são estes os valores que quero para ele.

Pela falta de maturidade que tem, tem tendência em repetir os argumentos dos colegas, sei que nem tudo vem da sua cabeça, mas, será que de tanto ouvir dizer que os colegas deficientes são chatos, só fazem asneiras e não deixam estudar, não se calam e só sabem dizer palavrões e se calhar era melhor nem estarem aqui, não acabará por pensar assim mesmo?

Será que o pouco tempo que passa em casa como os pais é suficiente para aceitar as diferenças e ser tolerante e respeitador?

 

 

Imagem tirada da internet

publicado por Abigai às 22:55

Porque foi a primeira palavra do meu filho, e de nada querer dizer, diz-me muito...
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