Abigai

Março 12 2010

Às quintas-feiras, vou com o meu G. à sede do agrupamento escolar à consulta semanal com a psicóloga educacional. Até aí tudo bem.... Mas enquanto o G. está com a psicóloga fico a aguardar na sala de espera... por vezes com outras mães.

Faço alergia a salas de espera.

O primeiro sintoma é o sono.

Fico com tanto sono que mal consigo manter os olhos abertos!

Nem com um livro evito bocejar a cada segundo. Os sessenta minutos de consulta parecem-me intermináveis...

 

Esta última quinta-feira fui premiada com a presença de uma outra mãe, também ela à espera de um filho e uma filha, também com dificuldades de aprendizagem, embora tenha ficado com a impressão que, naquele caso, seja nível social em que estão inseridas, o maior travão para uma adequada aprendizagem.

 

Não gosto de tirar conclusões precipitadas até porque, a julgar pelo comportamento do meu G. e visto de fora, a maioria das vezes, suponho que pensem que não o sei educar.

Mas, apesar de ser muito irrequieto, de não conseguir estar sentado numa sala de espera, o G. é educado, não insulta ninguém - muito menos a própria mãe - nem se diverte a tecer comentários do género irrepetível sobre os transeuntes.

 

O que me chocou não foi o baixo nível social daquela família. Penso que ninguém faz por estar naquela situação, pode eventualemente é nada fazer para tentar sair dela, mas isso é diferente. O que me chocou foi a forma descontraída que aquela mãe tinha perante o mau comportamento dos filhos, o sorriso rasgado ao dizer que não tinha mão neles nem paciência.

O que me chocou foi ver uma senhora da minha idade, com três filhos, sem trabalho, com marido desempregado, queixar-se que não consegue levar os filhos todos à escola a horas porque a mais velha já anda na escola preparatória e não pode estar em dois lados ao mesmo tempo - até aí tudo bem - uma vez que o marido fica de manhã na cama a dormir porque saiu até tarde na noite anterior e o pobre precisa de descansar.

O que me chocou foi ver uma senhora da minha idade, a contar como teve a terceira filha sozinha em casa porque o marido não teve tempo de a levar a maternidade e os bombeiros só chegaram depois do nascimento.

O que me chocou foi ver uma senhora da minha idade, sem dentes na frente, dizer que lavar os dentes não é para ela, que prefere esperar que a segurança social lhe "pague dentes novos, daqueles que depois não saem...", que já fez o pedido e entregou orçamentos, que já foi aprovado e só está a aguardar ser chamada, porque "se tenho direito, não vejo porquê havia de ter vergonha de pedir...".

O que me chocou foi ver uma senhora da minha idade, dizer que quando chegam a casa, manda os filhos fazer primeiro os deveres e só depois podem jogar computador ou PlayStation... E dizer "ainda ontem ele estava a fazer contas... sabe aquelas contas em pé com números, mas eu não sei ajudar... Se ele diz que está feito é porque está..."

O que me chocou foi ver uma senhora da minha idade, com aquela simplicidade e totalmente desinibida, contar a vida que leve, a educação que dá aos filhos, foi perceber que a pobreza não é apenas económica.

 

O que me deixou preocupada foram aquelas crianças.

Pelo exemplo que levam, e se nada for feito por eles, se não tiverem ajuda, se não se instruirem, mais tarde levarão um vida igual aos pais...

Afinal, está visto que mesmo que não trabalhem têm tudo o que precisam, talvez mais até do que os outros....

O que me deixou preocupado foi perceber que aquelas crianças, apesar de terem computadores, PlayStation, boas roupas, bom calçado e aparentemente não lhes faltar nada, não têm as minhas oportunidades que o meu filho tem.

O que me deixou pensativa foi o nome dado ao rendimento social de inserção... Qual inserção? Não questiono o facto de precisarem ou não de apoio económico, naquele caso pareceu-me evidente, mas não deveria ser feito alguma coisa além do apoio financeiro?

 

publicado por Abigai às 13:58

Realmente, é chocante tudo o que descreves. Parece-me que esses pais necessitavam de ser educados para poderem educar... É triste...
beijos e mil sorrisos
:o)))
mil sorrisos a 12 de Março de 2010 às 15:48

Mais triste ainda é não terem consciência disso... ou não quererem!
Bom fim-de-semana,
Bjs,
Anabela
Abigai a 12 de Março de 2010 às 15:53

Olá

A pobreza de espírito é sem duvida nenhuma a maior de todas...

Para além de tudo o que me chocou, chocou-me ver que pessoas que vivem do rendimento social, tem computador, playsation e roupas caras....isso fala bem das prioridades das pessoas e dos motivos que as leva algumas situações.

Bom fim de semana
Jorge
Jorge Soares a 12 de Março de 2010 às 17:58

A prioridade não é de facto, nem a educação nem a instrução. Não é infelizmente o primeiro caso que vejo, conseguem tudo da segurança social, não lhes falta comida, roupas e neste caso concreto assistência médico-dentária (eu se tenho que ir ao dentista tenho que pagar!), e aproveitam o que recebem para gastar em bens materiais como computadores, playstation, etc...
E este é o exemplo que dão aos filhos...
Bom fim-de-semana.
Anabela
Abigai a 12 de Março de 2010 às 18:39

Olá Anabela,

Fiquei estupefacta, perante a descrição do comentário, infelizmente existem muitas famílias assim, preferem viver dos “rendimentos”, negligenciando o papel crucial das figuras parentais!!

Incutir hábitos (leitura/autonomia/responsabilidades/regras), não faz parte do quotidiano.

Será escusado falar em afectos vs emoções… o que importa é o dinheiro… o resto…

Beijinhos

Susana Miranda
susana miranda a 20 de Março de 2010 às 22:17

Porque foi a primeira palavra do meu filho, e de nada querer dizer, diz-me muito...
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