Abigai

Abril 20 2010

Desde tenra infância que o G. apresenta características de hiperactividade. A nossa vida familiar era simplesmente alucinante.

Muito cedo preocupei-me com as suas capacidades de aprendizagem e frequentemente questionava a educadora que sempre procurava de alguma forma apaziguar os meus receios. Um dos aspectos que mais saltava à vista era a incapacidade do G. - ainda no jardim de infância -, de decorar canções infantis, para além de toda a sua instabilidade constante.

Na verdade, e no mais profundo do meu ser, eu tinha a convicção de que o G. sofria de hiperactividade. Comentava isso muitas vezes com o pai mas procurava constantemente alguma desculpa para negá-lo. Contrariamente às muitas mães que encontram no rótulo da hiperactividade uma desculpa para a má-educação, eu procurava justificar a hiperactividade do G. com o meu fracasso como educadora. Era para mim mais fácil encarar a minha imcompetência como mãe do que admitir e enfrentar esta problemática.

O pediatra do G. alertou-me algumas vezes para esta possibilidade e recomendou-me um psicólogo. Hoje sei que esta fase de negação arrastou-se demasiado tempo. Talvez teria evitado algum sofrimento ao G. se tivesse procurado apurar as causas de tanta agitação e oposição mais cedo. Adiei o diagnóstico o mais que pude porque, apesar da minha convicção, era menos penoso sentir culpabilidade.

Foi no final do segundo período do primeiro ano escolar que a professora de então alertou-me para a possibilidade do G. sofrer de hiperactividade. Nesse dia senti um peso enorme, caí em mim e percebi que tinha adiado demasiado o inevitável e com isso prejudicado o bem-estar do meu filho.

Com a cumplicidade da professora - que nos últimos dez anos tinha lecccionado no ensino especial e por isso muito sensibilizada -, colocamos uma câmara oculta na sala de aulas, direccionada para a mesa onde o G. deveria estar sentado.

Quando visionei a filmagem, ri desalmadamente para não chorar: as cenas captadas pela câmara eram hilariantes e incrivelmente preocupantes.

Sabendo eu que para haver um diagnóstico de hiperactividade seria necessário apresentar características em mais do que um contexto, esperava que na escola se comportasse melhor, que obedecesse, que estivesse atento e sossegado, esperava que a sua atitude perante a professora e a turma confirmasse as suspeitas da minha culpabilidade e incompetência como mãe. Ao invés disso, veio confirmar a mais profunda das minhas convicções: a hiperactividade com défice de atenção.

Desde então o caminho tem sido longo e tumultuoso, sem poder agarrar-me à minha culpa o desamparo é grande, com altos e baixos, com muito desespero à mistura, ver o sofrimento do meu filho é frequentemente insuportável.

A medicação é uma forte aliada na batalha que todos os dias travamos, a recusa diária do G. em aceitá-la traduz-se em manhãs stressantes, sufocantes e de profundo desespero.

Quem observar esporadicamente o G. dirá tratar-se de uma criança traquina e provavelmente mal-educada. Raramente comento que é hiperactivo pois a maioria das vezes não acreditam e deixo que pensem o que bem entenderem...

Ser hiperactivo não é apenas apresentar uma actividade física exacerbada.

Ser hiperactivo é um conjunto de factores que condicionam a vida de uma criança e da sua família.

Conviver diariamente com gritos, guinchos, um falar constante, rápido e incompreensível, com a resposta sempre na ponta da língua, com impulsos incontroláveis, com a fome constante, os gritos nocturnos, o choro compulsivo vindo do nada, com o sentimento de perseguição, com a baixa auto-estima e o fracasso, com a ansiedade e os estados de euforia, etc, simplesmente é penoso e difícil.

E não ter a quem atribuir responsabilidades é difícil de aceitar.

E como este post já vai longo, prometo continuar nos próximos dias...

 

publicado por Abigai às 09:22

Não há dúvida que ser mãe de uma criança hiperactiva não é fácil, ainda mais quando a doença é tão incompreendida e mal interpretada por parte da maioria da população. É por isso que vos admiro tanto... Quanto ao facto de teres negado o problema e adidado o seu diagnóstico, estou certa que sempre fizeste o que achavas que era melhor para o teu filho e isso iliba-te de qualquer tipo de culpa.
beijos e mil sorrisos
:o)))
mil sorrisos a 20 de Abril de 2010 às 11:19

Olá, obrigada pelas tuas palavras. Não sinto culpa, apenas lamento não ter agido mais depressa... E de facto, tens razão, tem dias em que é muito difícil ser mãe de um hiperactivo, mas o que tem de mau, ele compensa em dobro com mimos e carinhos.
Bjs,
Anabela
Abigai a 22 de Abril de 2010 às 22:15

Olá
Já convivi com hiperactivos, não é fácil e pessoas atentas e preocupadas como tu, vivem mais intensamente este problema.
A ideia da câmara é nova para mim, aqui nunca ninguém se lembrou disso, acho que ajuda muito.
Tenho uma frase que penso ser a tradução exacta para o que sentes..."A angústia é o preço a pagar por tanta lucidez"
Não te culpabilizes, fazes o que achas melhor e tenho a certeza que não poupas esforços, para que o G. ultrapasse ou consiga minimizar o problema.

Beijos
Manu
Existe um Olhar a 21 de Abril de 2010 às 00:50

Olá Manu, adorei a citação, acho que é mesmo isso... A filmagem foi uma ajuda importante no diagnóstico e como o G. não sabia dela, permitiu vê-lo naturalmente, sem qualquer artifício e acredita, foi impressionante para mim!
Aos poucos, tenho a certeza que o G. vai aprender a viver com a hiperactividade que com a idade tenderá a ser mais controlável por ele, mas sei também que o caminho vai ser longo... Só espero aguentar a pedalada, as vezes sinto as forças a falharem...
Bjs
Anabela
Abigai a 22 de Abril de 2010 às 22:20

Sigo atentamente os seus comentários aos posts do meu marido em "O que é o jantar" . Quando li este testemunho senti-me retratadissima e também eu vivo o drama diário de ter um filho com características muito semelhantes ao seu G. O que mais me dói...é sentir continuamente que falho muitas vezes como mãe, que ele sofre, e que não o consigo fazer feliz.
Gostava de trocar alguns emails consigo sobre esta problemática, pois realmente não conheço ninguém que viva uma situação semelhante à minha e muitas vezes sinto-me muita sozinha nesta luta quase diária.

Um abraço
Patricia
Patricia a 4 de Maio de 2010 às 11:33

Olá Patrícia,
Confesso que me sinto perdida muitas vezes e encontrei em alguns blogs a força que me faltava e aos poucos fui percebendo que não me deve culpabilizar (apesar de ser difícil evitá-lo). É de facto uma luta diária, e saber os porquês ou as teorias todas nem sempre ajuda, nos momentos mais difíceis raramente sei como reagir, mas vou tentando e apesar das muitas frustrações, quer minhas, quer do G., penso que o importante é reforçar o seu amor-próprio e ajudá-lo a ser feliz.
Vou no próximo sábado participar num seminário sobre hiperactividade - quando a energia nunca acaba -, falar com outros pais ou com profissionais é um apoio muito importante. Quando descobri o blog da Teresa Melo - energia-a-mais, a minha postura mudou muito, percebi que muitas das coisas que interpretava como a educação que não soube dar ao meu filho não o era, eram problemas comuns a todas as crianças hiperactivas, não controláveis, impulsos que eu não compreendia. Ajudou-me perceber isso, não faz com que eu aceite que aconteçam mas pelo menos não me culpo por isso e tenho mais paciência com o G.
O meu e-mail está no meu perfil, pode contactar-me sempre que quiser, a partilha de experiências é muito importante e ajuda muito.
Beijinhos,
Anabela
Abigai a 4 de Maio de 2010 às 12:40

Olá, sou nova leitora aqui. Vim até aqui através da "energia-a-mais" e acredito que não seja de forma alguma viver com esse tipo de problema em casa. Espero que consigam superar da melhor forma a hiperactividade do G. . Superar no sentido de conseguir lidar e ajudar o G. Para que todos sejam uma família feliz. Alegria não vos deve faltar com toda a certeza.
Desejo tudo de bom, e bom fim de semana.
C.
C. a 7 de Maio de 2010 às 12:53

Olá e obrigada pela visita, espero que aqui venhas muitas mais vezes.
De facto alegria e animação em casa não faltam, gritaria também não, mas nada é perfeito, não é?
Aos poucos vamos aprendendo e superando cada etapa da vida do G. e acredito que venhamos a ser bem sucedidos nesta tarefa.
Beijinhos e bom fim de semana,
Anabela
Abigai a 7 de Maio de 2010 às 14:52

Porque foi a primeira palavra do meu filho, e de nada querer dizer, diz-me muito...
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