Abigai

Outubro 23 2012

Na quarta-feira passada, levamos o G. à consulta de pediatria de desenvolvimento no Hospital S. João.

Confesso que, apesar da espera e da confusão de um hospital geral, saio sempre destas consultas com um sorriso nos lábios, muito mais confiante e segura das minhas decisões, e convicta de caminhar no bom sentido rumo a uma boa e acertada educação.

O G. encolhe-se todo a ouvir os sermões da pediatra, sempre pronto a responder como aliás faz em casa, mas capaz de segurar a língua!

A médica transmite confiança, segurança e muita sabedoria. Sem nunca melindrar aconselha e apoia. Nós sentimo-lo. O G. sente-o. E isso faz um bem à alma tremendo!

Entregou-nos um relatório para entregar na escola - mais um! -, e alertou-nos para esta nova fase que agora começa: a pré-adolescência. Sabemos que é uma fase difícil, e que o pior irá chegar dentro de uns 2 ou 3 anos (o G. ainda é muito imaturo para a idade cronológica, daí o espaço que ainda temos para nos prepararmos...). Já não tem sido muito fácil, mas por enquanto ainda o seguramos!

E como todos os anos por esta altura, aproveitamos para preencher o requerimento do complemento de abono por deficiência. Pois é! Deficiência!

O G. não é deficiente, apenas tem PHDA. Conheço crianças deficientes, uma em particular, irmão do meu afilhado, deficiente profundo. A mãe recebe o mesmo complemento que recebo pelo G. O mesmo!

Haverá comparação possível?

Não vou recusar os míseros € 59,00 que recebo, é pouco mas dá muito jeito! Não chega para a medicação e as consultas de psicologia, é verdade, mas ajuda. O que não compreendo é porque o valor é fixo, igual para todos, variando apenas consoante a idade. Isso, não consigo compreender. Não vou questionar o que eu recebo, é pouco mas estamos a falar de PHDA e não paralisia cerebral. O que está errado a meu ver, não será o que recebo mas o que outros, com deficiências diferentes, mais profundas, recebem. Não devia este complemento ser pago em função da deficiência, em função das necessidade pedagógica ou terapêuticas? Ou serei eu que estou a delirar?

Além disso, pergunto: se a segurança social considera a PHDA como deficiência permanente, porque o ministério da educação não a vê como tal? Porque será necessário lutar em todos os inícios de anos lectivos para ter apoios? Será que os ministérios não se entendem entre eles? Ou terão sequer algum tipo de comunicação entre eles? A pediatra de desenvolvimento entregou-me um relatório (saliente que não pedi nada!) extremamente completo desta vez, que enquadra o G. no âmbito da Lei 3/2008 e ainda sugere apoio na leitura dos enunciados, etc...

Confesso que me questiono ainda se devo entregar este relatório... Já sei que me vou meter mais uma vez em trabalhos...

Chegar à escola com um relatório do Hospital, supostamente de médicos habilitados e que sabem avaliar a hiperactividade, as necessidades de uma crianças hiperactivas, as suas limitações, incapacidades, dificuldades, mas também as suas capacidades de aprendizagem e/ou cognitivas, os seus pontos fortes, etc..., relatório esse que fala precisamente de incapacidades cognitivas que necessitam de uma abordagem diferenciada, entregá-lo à escola é como um murro no estômago... geralmente professores e/ou psicólogos educacionais levam isso como se de uma exigência se tratasse, como se apontássemos o dedo para eles e lhes disséssemos que não estão a fazer o trabalho que era suposto fazerem. Sentem-se ultrapassados e questionados quando na realidade, este relatório, passado por quem tem acompanhado a evolução, as conquistas e as batalhas perdidas, não é mais do que um alerta para uma problemática que pode ser ultrapassada, desde que todos se juntem e trabalhem no mesmo sentido.

Talvez tenha alguma sorte este ano, os professores parecem-me para já, muito mais abertos e empenhados. Sei que a psicólogo educacional da escola já está ao serviço, mas por enquanto ainda não viu o G. Por enquanto vou aguardar. Sei que tem muitas crianças para acompanhar e que não faz milagres, a escola tem crianças que precisam de mais apoio do que o G., não ponho isso em causa, mas o G. também precisa...

 

 

publicado por Abigai às 15:12

Novembro 16 2011

 

 

Revolta. É revolta que sinto hoje.
De há uns dias para cá, têm vindo muitos recados na caderneta do G., queixas relativas à sua falta de atenção nas aulas, - algo que me parece realmente estranho vindo de uma criança com PHDA! -, e também sobre a falta de conhecimentos.
Estranho!
Eu que pensava que o G. era um menino exemplar, repleto de sabedoria e sem qualquer tipo de dificuldades!
À professora de Matemática resolvi responder. Queixou-se que o G. não sabe a tabuada, não sabe fazer contas e não presta atenção.
Pois bem, pelos vistos é sabido mas alguns professores não sabem:

 

"É difícil separar os problemas de atenção dos problemas de memória. Se não somos capazes de estar atentos a uma informação, dificilmente conseguimos apreendê-la, integrá-la e armazená-la. Normalmente estas crianças têm uma boa memória a longo prazo mas a sua memória a curto prazo e a memória de trabalho deixam muito a desejar. Recordam-se do que aconteceu há um ano, mas têm muita dificuldade em reproduzir o que se lhes acabou de explicar."
(...)
"Memória de trabalho. Refere-se à capacidade de reter vários tipos de informação ao mesmo tempo. Se não somos capazes de representar mentalmente vários números, não podemos fazer cálculos mentais. Se queremos compreender o que lemos, temos que ser capazes de recordar as palavras do princípio de um parágrafo quando chegamos ao fim."
(...)
"Matemática. (...) Muitas crianças têm também uma discalculia - custa-lhes entender o tamanho relativo das figuras, aprender as tabuadas, recordar sequências de dígitos, entender o significado dos sinais e compreender conceitos matemáticos avançados."

 

Logo no dia seguinte, recebo mais um recado, desta vez da professora de apoio de Lingua Portuguesa que dizia mais ou menos assim: "o G. não presta atenção à aula, distrai-se e fala. Vou dar mais uma oportunidade, a continuar assim deixa de frequentar o apoio. Compreendo o problema de concentração, mas há limites."
Esta foi a gota!
Há limites sim! Há limites para a falta de informação dos professores - para não dizer ignorância -, há limites para a incapacidade das escolas em cumprir com as suas funções e obrigações de integrar todas as crianças, em proporcionar recursos pedagógicos para crianças com dificuldades específicas de aprendizagem. Há limites para tanta incompetência, ou não é esta uma escola inclusiva?
É este o futuro que queremos para as nossas crianças? Ensiná-las a marginalizar, a excluir aqueles que não se enquadram na norma?
O que devo dizer? Como resolver os problemas de atenção do G.?
Já sei! Vou começar a bater-lhe, talvez passe a comportar-se melhor, ou porque não, amarrá-lo à cadeira? Não... talvez fechá-lo numa sala sozinho durante o tempo lectivo para não incomodar ninguém?
Vou ter que sugerir estas soluções à escola, talvez resolva o problema....

 

O G. está medicado com metilfenidato. O G. tem terapia psicológica semanalmente, - e só eu sei o quanto me custa pagar as consultas! O G. vai regularmente às consultas de desenvolvimento no Hospital S. João. O G. foi sinalizado à escola. Entreguei na escola todos os relatórios médicos do hospital, do diagnóstico de dislexia, do psicólogo, etc.. O G. está num centro de estudos para reforçar conhecimentos.
Acho que estou a cumprir com a minha parte de educadora.
E o que faz a escola?
Não contrata a psicóloga educacional que o acompanhava desde que foi sinalizado, nem outra qualquer. Não proporciona qualquer tipo de avaliação diferenciada. Não reforça positivamente qualquer esforço demonstrado. Não! A escola reprimenda. A escola ameaça excluí-lo do apoio!

 

“O princípio fundamental das escolas inclusivas consiste em todos os alunos aprenderem juntos, sempre que possível, independentemente das dificuldades e das diferenças que apresentem. Estas escolas devem reconhecer e satisfazer as necessidades diversas dos seus alunos, adaptando-se aos vários estilos e ritmos de aprendizagem, de modo a garantir um bom nível de educação para todos, através de currículos adequados, de uma boa organização escolar, de estratégias pedagógicas, de utilização de recursos e de uma cooperação com as várias comunidades. É preciso, portanto, um conjunto de apoios e serviços para satisfazer as necessidades especiais dentro da escola.”
“…as escolas devem acolher todas as crianças, independentemente das suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras. Devem incluir as crianças deficientes ou sobredotadas, as crianças de rua, e as que trabalham, as de populações nómadas ou remontas; as de minorias étnicas e linguísticas e as que pertencem a áreas ou grupos desfavorecidos ou marginalizados.”

UNESCO (1994) Declaração de Salamanca e Enquadramento da Acção na Área das Necessidades Educativas Especiais, Lisboa: Instituto de Inovação Educacional

publicado por Abigai às 11:28

Outubro 31 2011

Curiosamente, hoje, ainda estava a acabar de ler este post e tocou o telefone.

Era a directora de turma do G. a contactar-me no seguimento da conversa que tivemos na passada terça-feira.

Falou com o G. relativamente aos elementos que lhe transmiti, os medos, as inseguranças e a falta de atenção e empenho nas aulas, e ligou-me para dar-me o feedback da conversa.

Desde que o G. ingressou na escola, tem tido aparentemente e a julgar pelas notícias que têm sido divulgadas imensa sorte com os professores.

No 1º ano teve uma professora que além de ser professora era também psicóloga e tinha trabalhado nos último 10 anos com alunos do ensino especial. Foi um pouco graças a ela que o G. foi diagnosticado, pois, apesar de sentir e no fundo saber que algo estava errado com o G., resistia e recusava a ideia de poder ser hiperactivo. A compreensão desta professora, também mãe de um miúdo com Asperger, ajudou-me a ultrapassar esta fase e partir para o diagnóstico.

No 2º ano o G., já diagnosticado e medicado, mudou de escola e, inicialmente, tive alguma dificuldade com a professora que não acreditava que o G. fosse hiperactivo, talvez pelo facto de estar controlado, mas, com o tempo foi percebendo e entendendo as dificuldades que tinha. Aos poucos verificou as limitações e lacunas que tinha, pediu ajuda ao agrupamento, arranjou-lhe uma professora de apoio individualizado 3 vezes por semana para ajudar o G. a aprender a ler - só conseguiu aprender a ler quase no final do 2º ano -, e sinalizou-o no agrupamento encaminhando-o para a psicólogo educacional que já no 3º ano começou a ter consultas com ele semanalmente.

Mais tarde ingressou no 5º ano, na sede de agrupamento, que supostamente tinha o processo dele e deveria estar a par das dificuldades e do diagnóstico. Por falta de organização ou incompetência dos órgãos administrativos, a directora de turma não tinha conhecimento que o G. estava sinalizado com dificuldades de aprendizagem e hiperactividade, nem tão pouco sabia que nesses último 2 anos usufruía do apoio da psicóloga do agrupamento. Os primeiros tempos foram difíceis mas depois de tudo esclarecido, deparei-me com uma professora dedicada, interessada e preocupada.

Antes mesmo do ínicio do 6º ano, ainda no período de férias, quando soube que a psicóloga ainda não tinha sido contratada por faltas de verbas e que não havia indicações de vir a sê-lo, a directora de turma entrou em contacto comigo para me explicar o que estava a acontecer e para alertar-me com tempo caso tivesse possibilidades de arranjar fora um psicólogo para o G.

Hoje ligou-me para dar-me o feedback da conversa que teve o G. e aproveitei para falar-lhe de um problema que surgiu na passada 6ª feira na aula de EVT em que o G. foi castigado sem perceber - ou não quer dizer -, porquê.

Sei que vai averiguar o que se passou e que me irá informar.

Felizmente, posso dizer que não será por falta de empenho ou interesse dos professores que o G. irá ter mais ou menos dificuldades, pelo menos no que diz respeito à directora de turma, o que é bom.

Sei que o caminho é muito acidentado e vai levar tempo a chegar à meta, mas sei também que alguns obstáculo foram eliminados logo à partido.

Supostamente, a Educação é mesma para todos. A julgar pelas notícias, parece-me que não será bem assim...

 

publicado por Abigai às 15:23

Outubro 20 2011

aqui falei sobre auto-estima, confiança e motivação.
Qualquer pessoa, seja ou não hiperactiva, necessita sentir-se reconhecida.
O reconhecimento das qualidades, sejam elas físicas, pessoais ou profissionais, permitem reforçar a auto-estima, tão importante para enfrentarmos a vida.
Há dias, quando vi o Abigai nos destaques do sapo, senti uma pitada de orgulho... Porquê? Simples, é uma forma de reconhecimento!
 

O G. é muito negativo, tem tendência a achar-se incapaz, inferior, nas palavras dele muitas vezes "burro", e fica paralisado ao mínimo obstáculo.
Acredito que a terapia que iniciou no passado sábado ajude a ultrapassar estes bloqueios que tanto o inibam de "viver".
É um menino muito esforçado na escola, está constantemente preocupado com os trabalhos de casa, com as regras e com tudo o que os professores poderão dizer, pensar ou fazer.
É com frequência chamado a atenção pelo professores porque demora muito a passar o que está escrito no quadro, porque tem que estudar mais, porque tem que se esforçar mais, etc...
À excepção feita da directora de turma e também professora de História, não se sente reconhecido, não sente que o esforço compensa, e por vezes noto nele a vontade de desistir.
Quando à noite revejo com ele os cadernos, os trabalhos de casa ou insisto com ele para em primeiro lugar colocar as obrigações e só depois o lazer, responde-me torto, refila, exalta-se e não há dia nenhum que não acabe com discussões, lições de moral e por vezes choros compulsivos.
 

Tento sempre reforçar a auto-estima do G. enaltecendo o esforço que faz, fazendo-lhe ver que por muito que parece injusto, uma criança com as dificuldades que tem precisa de estudar mais do que os colegas, que desde que se empenhe nunca irei ficar triste se trouxer notas baixas, mas remar contra a maré é difícil, cansativo e pouco compensatório.
Bastava que se sentisse reconhecido para não desanimar, para não desistir...
Será assim tão difícil um professor ver e compreender o esforço de uma criança com imensas dificuldade mas que leva sempre os trabalhos feitos, tem os cadernos impecáveis e, apesar de sinalizado com hiperactividade e défice de atenção, comporta-se bem na sala de aulas? Uma criança que mesmo não sabendo responder às perguntas dos testes não deixa um espaço em branco?
Será assim tão difícil um professor dar uma palavra de reconhecimento a uma criança tão necessitada de apoio, não de apoio escolar mas de uma simples palavra?
É claro que o facto de ter muitos medos e receios, de ser envergonhado e tímido, não ajuda.
É incapaz de perguntar a um professor o significado de uma palavra, de uma pergunta e tendo défice de compreensão, são muitas as vezes que responde ao lado da pergunta. Por um lado receia perguntar por timidez, por outro tem medo que o professor implique ou reaja mal por perguntar, para já não falar do pavor que tem em ser "gozado" pelos colegas. A aceitação dos outros é tão importantes nestas crianças.
 

Quero acreditar que consiga ultrapassar esta fase com a ajuda da terapia e do psicólogo mas temo que, sem a ajuda, disponibilidade e boa vontade dos professores, seja um esforço em vão.

publicado por Abigai às 15:17

Outubro 17 2011

Este fim-de-semana foi bem preenchido...
Sábado, acompanhei o G. à primeira consulta com o psicólogo.
Escolher um psicólogo não é tarefa fácil. O pediatra do G. há alguns anos atrás, aquando da necessidade de diagnosticar o que se passava com ele, aconselhou-nos um de que gostei imenso, que acompanhou muito bem o G. e o encaminhou para a consulta de desenvolvimento do Hospital S. João no Porto, mas que, além de não ser muito compatível em termos de localização, também não o era em termos de horários.
O G. está agora no 6º ano e tem um horário bastante preenchido. A médica da consulta de desenvolvimento recomendou-lhe terapia semanal e não esporádica.
Havia que encontrar forma de não perturbar o horário escolar do G. assim como também o meu, que a nível profissional é também ele muito preenchido. Além disso, faltar semanalmente ao trabalho para acompanhar o G. poderia tornar-se insustentável, até porque apenas iniciei esta actividade há 5 meses e não ficaria muito bem na fotografia.
Assim, e por indicação da mãe de um miúdo também hiperactivo que frequenta o mesmo ATL do G., encontrei a solução ideal. Esse rapaz, já com 17 anos, actualmente tem consulta de 15 em 15 dias. A mãe está muito satisfeita e confessa que a terapia que o filho faz há já alguns anos com este psicólogo tem feito "milagres".
É um psicólogo como outro qualquer - bom ou mau só o tempo o dirá, mas confesso ter ficado muito bem impressionada com a conversa que tivemos e a empatia que logo se gerou entre ele e o G., mas que dá consultas aos sábados de tarde, num local pouco habitual.
Tem um consultório num ginásio onde também é professor de boxe! Além de ter conseguido consultas num horário que não afecta em nada a vida escolar do G., o local é aprazível tornando a espera menos aborrecida! Eu trabalho ao sábado à tarde, o meu marido trabalha por turnos e por conseguinte nem sempre está disponível, mas sendo um sábado à tarde, até a avó o pode levar e uma vez que a consulta é com o G. e só esporadicamente o psicólogo irá convocar os pais, não vai afectar muito a minha vida profissional. Além disso, faz desconto aos sócios do ginásio, o que poderá ser benéfico quer para a nossa carteira, quer para a nossa saúde... enquanto se espera, podemos sempre fazer uns exercícios!
A consulta correu muito bem. Foi ainda a primeira, pelo que é ainda difícil dizer se vai surtir efeitos ou não, mas deu para ver que o G. gostou muito do psicólogo e sentiu-se em confiança, e isso é bom. Gostei da conversa, dos conselhos, da abordagem. A partir de agora vai consultar o G. uma vez por semana, reduzindo gradualmente quando achar que já não se justifica a frequência inicial. O G. ficou apenas cerca de 20 minutos sozinho com ele, sendo a primeira consulta, grande parte do tempo foi também comigo, pelo que ainda é cedo, quer para ver resultados no G., quer para o médico pronunciar-se sobre as frustrações, ansiedades ou fobias do G. Vai ser também uma forma de confirmar, com um especialista diferente, se o diagnóstico do G. está ou não correcto. O médico, não querendo desconfiar dos relatórios que lhe entreguei, avisou-me logo que iria também ele fazer o seu diagnóstico, até porque é essencial para ajudar o G.
Ajudar... assim o espero.
Como tive que faltar ao trabalho para levar o G. à consulta, aproveitei a oportunidade para me fazer de convidada do meu patrão, no Montijo! Assim, após a consulta rumamos ao Montijo, uma viagem de 3 horas, cansativa mas bem humorada. O G. passou o tempo todo a cantar, a falar, a gritar também, mas boa disposição, não faltou.
Quando chegamos, fomos directos à pensão que o meu patrão reservou para nós e aí é que o G. começou a "passar-se". Nunca tinha passado nenhuma noite fora a não ser em casa de familiares ou amigos. Era um mundo novo para ele. E era apenas uma pensão, nada de luxuoso ou extravagante, mas para ele fantástico.
Um quarto simples, com 3 camas, casa de banho, varanda e TV. "Ao mãe... temos que fazer as camas de manhã?... não!... a sério?... eles fazem?" Tanta inocência! Estava completamente aturdido com tanta novidade.
Fomos jantar com os colegas das outras lojas que eu ainda não conhecia e com o patrão, obviamente... e o G. estava maravilhado com tudo. A seguir ao jantar ainda fomos a um bar e aí é que começou a aquecer... "Ao mãe... isto é que é a "night"?... que fixe!... e olha, aquelas meninas? Que saias curtas! Têm as pernas completamente à mostra! Que fixe, mãe!"
E eu a pensar baixinho... saias? que saias?
Portou-se lindamente e aguentou-se até às 2 da manhã sem se queixar! As 7h30 do dia seguinte, já nos estava a tirar da cama porque o dia começa cedo e há muito que ver e fazer!
Quando descemos para tomar pequeno almoço, foi mais uma vez um espanto para o G. Ser servido e poder escolher foi para ele algo realmente fantástico e maravilhoso. Quando o empregado lhe perguntou se preferia leite achocolatado, olhou para mim dubitativo e perguntou "posso mãe?... não pagas mais?". O espanto dele era imenso, ter a mesa posta, o leite, pão, uns pacotes de manteiga, queijo, doce de morango, à discrição, sem ter que pedir, sem ter que pagar mais por isso... E não era um hotel, apenas uma pequena pensão!
Agora, quero mesmo levá-lo um dia destes a um hotel para que veja não só a diferença, mas também para eu ver o espanto dele, a alegria.
Após visitarmos a fábrica na manhã de Domingo e darmos por concluída a visita de trabalho, rumamos ao Parque das Nações, para almoçar e passear.
Foi um dia muito bem passado, cansativo porque ainda nos esperava uma viagem de 3 horas de regresso a casa, mas valeu bem à pena, nem que seja só pela felicidade chapada no rosto do meu G., felicidade, alegria, espanto e satisfação.
Temos mesmo que fazer isso mais vezes, mas talvez mais perto também!

 

Imagem da internet

publicado por Abigai às 18:35

Setembro 14 2011

 

Amanhã é dia de apresentação a este novo ano lectivo.

Amanhã!

Mas hoje, ainda não eram 9h da manhã recebi um telefonema da directora de turma do G., a mesma do ano anterior. Uma chamada de preocupação - o que à partida agradou-me, pelo menos mostrou muito interesse na evolução do G., porque acabava de ser informada que este ano, a escola ainda não tinha autorização nem verbas, para a contratação da psicóloga educacional.

A professora queria saber se o G. tinha algum acompanhamento fora da escola ou, caso não tivesse, se podia tratar de encaminhá-lo para algum psicólogo uma vez que ele tanto precisa e a escola não o irá providenciar, pelo menos no primeiro período.

Ainda não há certezas quanto ao segundo periodo, poderá eventualmente haver contratações em Janeiro, mas por agora, confirma-se que a Dra. M. não estará presente para prestar apoio ao G. ou a qualquer outra criança.

Compreendo a preocupação da professora. O alerta dela foi bem intencionado e mostrou sem dúvida que está atenta e o interesse que tem pelos seus alunos. O G. não é o único menino da turma a beneficiar deste acompanhamento e não será o único prejudicado, o que irá também complicar a tarefa dos demais professores.

Como cheguei a referir aqui já tencionava proporcionar uma terapia mais adaptada às necessidades do G., em complemento ao acompanhamento da psicóloga da escola direccionado para a vertente educacional e de dificuldades de aprendizagem e compreensão.

 

Assim, já estava preparada para assumir um custo adicional, fora da escola.

E o que não fazemos pelos nossos filhos, não é?

Penso conseguir proporcionar ao G. este acompanhamento e se, por ventura, acontecer algum imprevisto financeiro, sei também que terei sempre alguém por perto para ajudar no que for necessário.

Felizmente tenho esta sorte. E os outros meninos cujas famílias não podem suportar estes encargos? O que vai ser deles?

Tenho agora preocupações acrescidas. Além de tentar ultrapassar as dificuldades emocionais do G., a psicóloga que irei contratar terá também que ajudar na parte educacional de desenvolvimento cognitivo.

Por outro lado, avizinham-se tempos iniciais difíceis porque, sempre que o G. se sentia diminuído, frágil ou simplesmente como peixe fora do aquário, recorria à Dra. M., que com muito carinho, compreensão e dedicação, conseguia ajudá-lo a reencontrar o caminho. Além disso, quando o G. não estava bem e não se abria connosco, a Dra. M. conseguia alcançá-lo.

Agora, sem ela por perto, vamos ver como irá correr!

publicado por Abigai às 14:14

Maio 21 2011

 

 

 Já passaram algumas semanas desde a entrega da avaliação do G., é verdade, mas na realidade, pouco haverá a dizer, além de tudo o que já tem sido dito.

O G. continua a apresentar muitas dificuldades, manteve praticamente as notas do período anterior, excepto a matemática, disciplina na qual apresenta agora uma avaliação negativa.

Como dizia no post o G. estava convencido que, apesar das dificuldades, a professora iria atribuir-lhe uma positiva.

Ficou desiludido, triste e também preocupado.

Eu não.

Esta negativa não irá impedir a passagem para o 6º ano e confesso não saber o que será melhor!

Estivemos reunidos com a psicóloga educacional que lhe presta acompanhamento na escola, com a directora de turma e aguardamos agora agendamento de uma reunião com a professora de matemática.

Os comentário colocados pela professora nos testes, deixam-me bastante perplexa e aborrecida, ao G. deixa um sabor amargo a derrota e a dúvida se vale ou não à pena o esforço que tem feito. Com frequência escreve 'tens que estudar mais', 'não percebeste nada', 'não estudaste',etc..

Acontece que, não sendo eu professora e não estando totalmente a par dos assuntos programáticos da disciplina, tenho forçosamente necessidade de delegar o acompanhamento do estudo a quem o entende.

Ajudo o estudo ou trabalhos de casa ao fim-de-semana mas nos dias úteis, o G. estuda no ATL e, pelo que me apercebi, está muitíssimo bem orientado e acompanhado por professoras competentes.

Seguindo a sugestão da psicóloga, preparei uma pasta com todas as fichas feitas pelo G., todos os apontamentos e exercícios efectuados no ATL e mandei o G. entregar à professora de matemática com um recado na caderneta a solicitar que visse o esforço do G. e, caso não achasse adequadas as fichas elaboradas pelo centro de estudos, que sugerisse outras mais ao encontro do que pretende dele.

A resposta não se fez esperar e além de salientar que não duvida do esforço e empenho do G., sugeriu um encontro. Espero entender-me com ela. Não pretendo que avalie de forma positiva o G. pelo simples facto que estuda e esforça-se. Apenas pretendo que seja justa com ele nas palavras que emprega e não o deite por terra simplesmente porque não consegue. Não podemos ser todos génios, alguns chegam lá, outros não. Contudo, não podemos desprezar e até mesmo rebaixar o que só por si já é difícil e traumáticos, menosprezar um esforço repetido e infelizmente sem grande sucesso, apenas irá levar o G. a desistir de todo este esforço e a concluir que não compensa. Não quero que tenha positivas pelo esforço, mas também não quero que seja rotulado de preguiçoso ou pouco estudioso porque não atinge os objectivos, devia sim ser encorajado a continuar o esforço e para isso, não precisa de uma boa nota, apenas de uma boa palavra.

 

Quanto a mim, iniciei esta semana uma nova fase na minha vida profissional, ainda é cedo para avaliar a decisão tomada, mas tudo indica encaminhar-se para o que esperava. O espaço é bom, as condições são excelentes, a autonomia não podia ser melhor, enfim, parece que desta vez acertei. É claro que ainda só passou uma semana, é claro que não sei se irão cumprir com o acordado, e claro, é um projecto novo, uma aposta nova, e como em tudo o que é inovação, pode não receber do público a resposta esperada ou mais adequada.

 

Esta mudança trouxe também algumas alterações na nossa vida familiar, o tempo agora escasseia, é um trabalho a tempo inteiro, de segunda a sábado, deixa algum espaço para mim por encontrar-me próxima de tudo e ter tempo para compras e passeios no intervalo para o almoço, mas deixa pouco espaço para a vida familiar. Mas como já aqui disse, o trabalho é para mim fundamental para o meu equilíbrio psicológico, para manter a minha sanidade e olhar para a vida com mais optimismo e fair-play!

Com boa vontade e organização, estou convicta que conseguiremos encontrar formas de contornar estes pequenos contratempos!

 

Imagem tirada da Internet

publicado por Abigai às 11:00

Fevereiro 06 2011

.... e o tempo é escasso.

Tenho descorado muito este espaço, e confesso que sinto falta!

 

 

Teria tanto para dizer que nem sei por onde começar.

O G. saiu-se bem na avaliação global do primeiro período, não teve negativas, embora a maioria das positivas fossem baixas.

De uma forma geral fiquei muito satisfeita, os esforços do G. foram recompensados e ele mostrou-se muito animado.

 

Mas como nem tudo pode correr bem, ultimamente têm estado "diferente". Sinto que alguma coisa o preocupa, provavelmente na escola, mas não consigo tirar nada dele. Tem perdido peso e a médica já ameaçou retirar-lhe a medicação, por suspeitar ser a causa da perda de peso.

Estou convicta de que não é devido à medicação mas sim a algo que o perturba.

A psicóloga da escola tem estado com ele duas vezes por semana, e também acha o mesmo.

Quando lhe foi dizer que iria atendê-lo duas vezes por semana, o G. ficou radiante, o que também vem reforçar o facto de estar a precisar de falar, até porque, segundo a psicóloga, em geral, quando chama algum miudo para uma consulta, nenhum se mostra radiante, como aconteceu com o G.

Até agora, ainda não conseguimos saber ao certo o que se passa.

Inicialmente pensei que seria devido ao trabalho que estava a elaborar na disciplina de Área de Projecto, que ele não entendia e para o qual estava inserido num grupo em que o chefe é daqueles que sabe tudo, nunca concorda com nada que os outros fazem, e que, além de dar ordens, pouco mais faz. A psicóloga passou a fazer os trabalhos de casa desta disciplina com ele, para melhor se inteirar da situação e, embora tenha chegado à conclusão que de facto o chefe de grupo é um pouco arrogante, não lhe pareceu que este seja a origem de tanta frustração.

Além disso, o G. está a ficar mais agressivo, mais irritadiço e muito mais desobediente, o que mostra bem a revolta que existe nele, apesar que, desde que voltou para a psicóloga, a situação tem vindo a melhorar gradualmente.

Hoje, sentei-me com ele para estudar Inglês - vai ter teste na terça-feira -, e, na verdade, nem sei por onde começar...

Responde à questões colocadas ao calhas, não percebe rigorosamente nada, não tem qualquer vocabulário e não sabe prenunciar, confunde os pronome todos, os verbos, a ordem das palavras, etc.

Como não percebi mais cedo? Talvez porque até agora e desde o arranque tumultuoso inicial, além de serem exercícios básicos e simples, foi decorando e, agora que as coisas se complicam, não entende...

Não fui capaz de o ajudar, não sou professora, não sei como ensinar, e, quanto mais tentava mais ele ficava frustrado e acabou em pranto.

Não fui capaz de o massacrar.

Ele tem estudado tanto que me custa ver que não reteve nada e tenho receio que venha a desistir.

Desde o inicio que o Inglês tem sido uma tortura para ele, e, quanto mais o tempo passa, mais me parece que nada aprende na escola, e não fosse o esforço da professora do ATL e o meu em casa, acho que ainda seria pior.

 

Deixei de lhe dar medicação ao fim-de-semana, não seja mesmo esta a origem da perda de peso.

Não tem sido muito fácil, mas tenho tentado manter a calma e ser mais compreensiva. É impossível ter um pouco de silêncio e paz, mas nota-se que também ele está a esforçar-se para controlar-se, embora sem grande sucesso.

 

Na passada sexta-feira teve teste a matemática, estava tão animado pela manhã, tinha estudado muito, eu tinha feito alguns exercícios com ele, e eu própria estava convencida que iria correr muito bem. Chegou a casa tristíssimo, desanimado e cabisbaixo. Acha que correu muito mal, não soube responder a maioria das questões colocadas e isso porque saber fazer contas, decompor em números primos, etc., não chega: é preciso entender os enunciados e compreendê-los para saber responder. A compreensão da leitura continua a ser um problema difícil de ultrapassar.

 

Já não sei o que é pior, se o facto de ser hiperactivo ou ter dificuldades de aprendizagem, embora saiba que está tudo interligado.

Com a hiperactividade, embora tenha ainda muito a fazer, aprendi a lidar. Com as dificuldades de aprendizagem, a dislexia, o défice de compreensão e de atenção, não sei mesmo o que fazer. Não sei como ajudá-lo. Se hoje parece entender, amanhã já não faz a menor ideia do que se trata. Fica a olhar para nós, com ar incrédulo, sem perceber porque o questionamos, como se nunca na vida tivesse ouvido falar em tal coisa.

É tão meigo e carinhos, tão dedicado e estudioso e ao mesmo tempo, tão agressivo, desobediente e impulsivo, tão generoso e exigente, tão descontrolado e divertido...

Tantos adjectivos para um só menino.... quando o único que eu precisava era feliz.

publicado por Abigai às 20:08

Dezembro 27 2010

 

Há dias acabei de ler este livro Sinto Muito de Nuno Lobo Antunes.

Não vou falar do livro, confesso que me decepcionou um pouco, não que não o considere bom ou que não tenha gostado, mas tinha uma ideia diferente em relação a ele.

Contudo, encontrei pelo meio uma crónica que me chamou muito atenção intitulada No mundo das crianças a preguiça não existe.

Aplica-se a todas as crianças e não apenas às crianças hiperactivas. Tocou-me muito porque descreve muito o que sinto em relação ao G. e às dificuldades que ele enfrenta diariamente.

Por isso, transcrevo aqui esta crónica que na minha modesta opinião, deveria ser lida por todos os professores, educadores e também pais.

 

A Inês tem sete anos e é encantadora. No quadro branco pintou uma paisagem ingénua, por onde passeia a sua infância. Num traço hesitante surgiram montes e casas e, por cima, um sol que, por se sentir sozinho, pediu a umas nuvens que lhe fizessem companhia. Quando acabou, a artista interrogou-me sem palavras, pedindo aprovação para um desenho colorido com o brilho do olhar, a vivacidade da expressão e a facilidade do sorriso. Como se pode julgar o que é maior do que nós?

Não foi fácil entender o motivo da consulta. Dentro da sala de aula - explicava a mãe - a Inês sofre uma metamorfose ao revés. A borboleta esfusiante transforma-se num bichinho amedrontado, que se esconde atrás dos colegas, na esperança de não ser notado. Tudo o que tem a ver com a escola, mesmo o mais simples exercício, a leitura ou escrita de um monossílabo, assemelha-se a um difícil número de trapézio, donde antevê, como eminente, uma queda aparatosa, ponto de exclamação numa arena sem rede. No entanto, mal toca a campainha para o «recreio», está de volta a alegria de viver que enche de cor, o nada de um quadro branco. Pouco a pouco, a Inês deixou de acreditar que era capaz e, na certeza da sua incompetência, sentiu-se culpada e má, menina que não presta, para quem as letras e os números têm segredos indecifráveis, enigmas que os colegas resolvem na ligeireza de um «abre-te Sésamo», tesouros que lhe estão vedados. Porém, estou certo que lê, como ninguém, a inquietação, (e angústia), que o olhar da mãe não consegue disfarçar.

Todos os meses percorro as escolas do país, levando um Evangelho de ideias simples, princípios em que acredito. As crianças nascem para ser felizes. O seu cérebro tem um potencial fantástico de curiosidade, espanto, encantamento pela descoberta. Até à entrada na escola, isto é evidente para todos os pais, que inevitavelmente se apaixonam por aquele brilhozinho nos olhos, o riso sem disfarce, a alegria sem nuvens. O dito inesperado, a observação certeira, a coerência com o universo. Porém, à entrada na escola, para muitos, tudo se transforma. De repente, o mundo mudou. O afecto ou o sorriso dos adultos parece depender da facilidade com que se resolvem novos quebra-cabeças, que envolvem gatafunhos a que os «crescidos» chamam letras e números. Se, para alguns, a navegação dessas águas é fácil e fonte de encorajamento e satisfação, para outros, é um cabo das Tormentas, sem Boa Esperança à vista. As crianças entristecem, prisioneiras de um aquário onde muitos olhos observam os seus resultados, realizações, derrotas. A autoconfiança esvai-se lentamente, a ida para a escola torna-se uma punição. As outras crianças, muitas vezes imitando os adultos, fazem troça de uma resposta errada, de uma leitura hesitante, de um ditado com erros, que é exibido, como edital, perante a turma. És preguiçoso - dizem uns - és um distraído - dizem outros. A insinuação da inferioridade vai-se tornando progressivamente mais clara, até atingir, por vezes, a afirmação pura e simples de que se é «burro». Em casa, tentando ajudar, a mãe senta-se com o seu filho, durante horas intermináveis, na realização dos trabalhos de casa. Tempo de frustração intensa, que muitas vezes acaba com lágrimas de uns e de outros. O mundo, para a criança, tornou-se hostil. Para os pais a perplexidade: como explicar que aquela criança tão «viva» e «esperta», se mostre incompetente quando posta à prova no mundo das letras e dos números. Como explicar que o que parece ter aprendido hoje, seja de pronto esquecido amanhã? Porquê hoje responder bem às questões colocadas em casa, mas chegado o dia do teste, tudo pareça ter-se dissolvido num mar de ignorância. Como explicar o contraste entre a dificuldade de concentração nas aulas e as horas esquecidas em frente a um jogo de computador, numa vigilância de sentinela? E o «click» de que os amigos falam e não chega? E a imaturidade que a psicóloga diagnosticou e não mais se resolve? A explicação surge em regra responsabilizando a criança: é distraída, preguiçosa, desinteressada. O discurso não deixa dúvidas, a culpa é da criança: «Porque não pões os olhos na tua irmã? Porque não és como o teu colega Luís? Sabes os sacrifícios que os pais fazem para te educar... porque não lhes dás essa alegria?» E a criança esforça-se mais uma vez, e mais uma vez falha, até à conclusão inevitável: não presta! E se não presta e não é capaz, porquê tentar? Algumas descobrem a saída que os poderá tornar populares: ser o «palhaço» da aula, o mais aventureiro, o que desafia a autoridade. Na infância e na adolescência...

O meu credo é simples:

- Não existem crianças preguiçosas, mas sim crianças cansadas do insucesso.

- O insucesso cria um círculo vicioso que gera mais insucesso, descrença, frustração.

- Os bons resultados, pelo contrário, aumentam a motivação, a confiança, o êxito.

- As crianças não acordam de manhã com intenção de falhar, errar, criar angústia em pais e professores. Se isso acontece, é porque a vida escolar nada lhes trouxe que as faça felizes ou confiantes.

A minha ideia mais simples, e porventura a mais importante, é que no mundo das crianças a preguiça não existe.

 

Revejo nestas palavras o percurso do meu G. Tem encontrado professores interessados mas infelizmente nem todos o são e com alguma frequência, são necessárias reuniões com a directora de turma para minimizar os problemas.

As dificuldades de comunicação com a professora de Inglês geraram muitos problemas para o G. que até febre fazia nos dias em que tinha essa aula. Não sei se por ter havido muitas queixas relativamente à disciplina, se por coincidência, mas o primeiro teste foi extremamente fácil e praticamente uma cópia do manual escolar, o que permitiu ao G. ter um "Bom". Levantou-lhe a auto-estima e pôs por enquanto um ponto final às noites mal dormidas, às febres e aos pesadelos, mas será que não vai voltar ao mesmo quando a poeira assentar?

 

 

publicado por Abigai às 21:03

Novembro 05 2010

 

Educar é difícil.

Educar quando os filhos passam mais tempo fora de casa é mais difícil ainda.

Com os pais a trabalhar durante o dia, as crianças passam a maior parte do tempo com outros educadores ou crianças e, sob a influência e/ou exemplo destes torna-se complicado encontrar um ponto de equilíbrio, evitar conflitos de ideias e até mesmo incutir valores.

Fui educada num país onde a intolerância e o racismo são marcantes e, apesar de integrar-me perfeitamente e aparentemente não destoar, sempre senti orgulho em afirmar-me portuguesa, o que, em algumas ocasiões, trouxe-me alguns dissabores.

Não fui vítima de racismo mas senti por diversas ocasiões o que é ser alvo de preconceito e intolerância. Existe uma tendência em generalizar o que se vê em determinado grupo ou nacionalidade. Lembro-me de, em conversas com colegas de escola sobre profissões, ver daqueles sorrisos trocistas que, julgando saber responder a tudo, diziam ah… deve ser trolha o teu pai, não? Nessas alturas, dava-me um prazer indescritível mostrar os brincos que usava ou os anéis ou as pulseiras e dizer não… o meu pai é ourives, foi ele que fez estas jóias, gostam? E anos mais tarde, quando o meu pai foi condecorado com a medalha de honra do trabalho, o gozo foi maior ainda.

Por isso e muito mais ainda, tento a todo o custo incutir valores ao G. que para mim são importantíssimos: tolerância, respeito, compreensão, aceitação, indulgência, etc.

Fiquei satisfeita por saber que tinha crianças deficientes na turma dele, a convivência com realidades diferentes, com dificuldades diferentes, haveria de ajudar a entender o que é aceitar, compreender e respeitar da mesma maneira, quer se seja branco, preto, baixo, alto, gordo, magro, portador de deficiência ou não. Pelo menos assim pensava…

Quanto mais o G. cresce, mais dificuldades sinto. Conheço a maioria das mães dos colegas dele, embora pouco conviva com elas. Não aparentam ser intolerantes ou preconceituosas nem tão pouco elitistas. A verdade é que ultimamente, o G. tem tido algumas conversas para mim irritantes sobre os colegas deficientes e, inevitavelmente, pergunto-me de onde virão tais influências. Da minha parte, estou convicta que não.

Dos colegas não sei. Mas se é dos colegas, não deveriam os pais destes ensiná-los a serem compreensivos com quem tem certas e determinadas dificuldades mas que não deixam de ser crianças como eles, com direitos e deveres, com necessidades de convívio, de carinhos, de atenção. E quem fala de deficientes, fala de outras etnias, nacionalidades, crenças, etc…

O G. é hiperactivo. Tem dificuldades de aprendizagem e é bastante imaturo para a idade. Mais do ninguém deveria entender que não se pode discriminar. Sei que ainda é muito novo, que é difícil para ele colocar-se no lugar do outro, que é complicado fazer o paralelismo com a situação dele e com experiências que tem vivido, também elas de discriminação, mas, para mim, esta semana tem sido esgotante.

Não é esta a educação que lhe dou, não são estes os valores que quero para ele.

Pela falta de maturidade que tem, tem tendência em repetir os argumentos dos colegas, sei que nem tudo vem da sua cabeça, mas, será que de tanto ouvir dizer que os colegas deficientes são chatos, só fazem asneiras e não deixam estudar, não se calam e só sabem dizer palavrões e se calhar era melhor nem estarem aqui, não acabará por pensar assim mesmo?

Será que o pouco tempo que passa em casa como os pais é suficiente para aceitar as diferenças e ser tolerante e respeitador?

 

 

Imagem tirada da internet

publicado por Abigai às 22:55

Porque foi a primeira palavra do meu filho, e de nada querer dizer, diz-me muito...
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