Abigai

Outubro 23 2012

Na quarta-feira passada, levamos o G. à consulta de pediatria de desenvolvimento no Hospital S. João.

Confesso que, apesar da espera e da confusão de um hospital geral, saio sempre destas consultas com um sorriso nos lábios, muito mais confiante e segura das minhas decisões, e convicta de caminhar no bom sentido rumo a uma boa e acertada educação.

O G. encolhe-se todo a ouvir os sermões da pediatra, sempre pronto a responder como aliás faz em casa, mas capaz de segurar a língua!

A médica transmite confiança, segurança e muita sabedoria. Sem nunca melindrar aconselha e apoia. Nós sentimo-lo. O G. sente-o. E isso faz um bem à alma tremendo!

Entregou-nos um relatório para entregar na escola - mais um! -, e alertou-nos para esta nova fase que agora começa: a pré-adolescência. Sabemos que é uma fase difícil, e que o pior irá chegar dentro de uns 2 ou 3 anos (o G. ainda é muito imaturo para a idade cronológica, daí o espaço que ainda temos para nos prepararmos...). Já não tem sido muito fácil, mas por enquanto ainda o seguramos!

E como todos os anos por esta altura, aproveitamos para preencher o requerimento do complemento de abono por deficiência. Pois é! Deficiência!

O G. não é deficiente, apenas tem PHDA. Conheço crianças deficientes, uma em particular, irmão do meu afilhado, deficiente profundo. A mãe recebe o mesmo complemento que recebo pelo G. O mesmo!

Haverá comparação possível?

Não vou recusar os míseros € 59,00 que recebo, é pouco mas dá muito jeito! Não chega para a medicação e as consultas de psicologia, é verdade, mas ajuda. O que não compreendo é porque o valor é fixo, igual para todos, variando apenas consoante a idade. Isso, não consigo compreender. Não vou questionar o que eu recebo, é pouco mas estamos a falar de PHDA e não paralisia cerebral. O que está errado a meu ver, não será o que recebo mas o que outros, com deficiências diferentes, mais profundas, recebem. Não devia este complemento ser pago em função da deficiência, em função das necessidade pedagógica ou terapêuticas? Ou serei eu que estou a delirar?

Além disso, pergunto: se a segurança social considera a PHDA como deficiência permanente, porque o ministério da educação não a vê como tal? Porque será necessário lutar em todos os inícios de anos lectivos para ter apoios? Será que os ministérios não se entendem entre eles? Ou terão sequer algum tipo de comunicação entre eles? A pediatra de desenvolvimento entregou-me um relatório (saliente que não pedi nada!) extremamente completo desta vez, que enquadra o G. no âmbito da Lei 3/2008 e ainda sugere apoio na leitura dos enunciados, etc...

Confesso que me questiono ainda se devo entregar este relatório... Já sei que me vou meter mais uma vez em trabalhos...

Chegar à escola com um relatório do Hospital, supostamente de médicos habilitados e que sabem avaliar a hiperactividade, as necessidades de uma crianças hiperactivas, as suas limitações, incapacidades, dificuldades, mas também as suas capacidades de aprendizagem e/ou cognitivas, os seus pontos fortes, etc..., relatório esse que fala precisamente de incapacidades cognitivas que necessitam de uma abordagem diferenciada, entregá-lo à escola é como um murro no estômago... geralmente professores e/ou psicólogos educacionais levam isso como se de uma exigência se tratasse, como se apontássemos o dedo para eles e lhes disséssemos que não estão a fazer o trabalho que era suposto fazerem. Sentem-se ultrapassados e questionados quando na realidade, este relatório, passado por quem tem acompanhado a evolução, as conquistas e as batalhas perdidas, não é mais do que um alerta para uma problemática que pode ser ultrapassada, desde que todos se juntem e trabalhem no mesmo sentido.

Talvez tenha alguma sorte este ano, os professores parecem-me para já, muito mais abertos e empenhados. Sei que a psicólogo educacional da escola já está ao serviço, mas por enquanto ainda não viu o G. Por enquanto vou aguardar. Sei que tem muitas crianças para acompanhar e que não faz milagres, a escola tem crianças que precisam de mais apoio do que o G., não ponho isso em causa, mas o G. também precisa...

 

 

publicado por Abigai às 15:12

Dezembro 10 2011

Prometi aqui falar da resposta da professora de apoio de Língua Portuguesa, é verdade...
Confesso que não gostei nem um pouco, mas como gosto sempre de um bom desafio, esta foi o incentivo que talvez me faltava para deixar bem claro à directora de turma que, além de bem informada sobre a legislação e os direitos do G., não estava minimamente disposta a "deixar andar"...
Reuni com a directora de turma há quase 15 dias depois de estudar o Projecto Educativo e Curricular do Agrupamento, o Regulamento Interno e o Despacho Normativo nº50/2005 pelo qual o G. supostamente estava abrangido. Solicitei o acesso ao processo individual do G., algo que deixou a directora de turma algo perplexa - na verdade, não sei bem porquê, pois é um directo que me assiste! -, e questionei-a sobre o que estava a ser feito relativamente às conclusões da avaliação feita em 2009 ao G. e que o colocava ao abrigo do despacho normativo nº50/2005.
Não irei entrar em grandes pormenores porque este assunto ainda não está concluído e está neste momento a decorrer nova avaliação por parte do Serviço de Psicologia e Orientação do agrupamento, mas a conclusão que tirei deste encontro foi desconcertante. Apesar de todas as conversas e reuniões tidas com a Directora de Turma, parece-me claro que nunca analisou convenientemente o processo do G., a expressão dela ao ver comigo os pareceres, os relatórios da SPO, das professoras de apoio ainda no 1º ciclo, as avaliações externas da dislexia, etc., não deixou margem para dúvidas. No entanto, mostrou-se interessada em ajudar, já requereu nova avaliação e no dia seguinte o G. iniciou apoio individualizados a Língua Portuguesa e a Matemática, algo que o G. classifica de muito melhor e interessante. Vou dar o benefício da dúvida mais uma vez e esperar o fim desta nova avaliação para tirar nova conclusão...

 

E agora, aproxima-se o Natal... O G. tem que estar sempre ocupado, não quero que passe os fins de semana a jogar PlayStation embora não o proíba, não quero que esteja sempre a estudar pois tem que ter tempo também para ser criança, mas também não posso deixar de arranjar estratégias diferentes para aprender brincando. Assim, aos domingos, como quem não quer nada, vejo desenhos animados com ele, histórias curtas da minha infância, do Marco ou da Heidi, e depois o G. faz-me o resumo. Compreendo melhor agora porque tem tantas dificuldades. Coisas simples e que gosta como desenhos animados, são difíceis de entender para ele. Além de não compreender totalmente a história tem uma dificuldade enorme em expressar o que entendeu e colocá-lo no papel... O G. tem algo de muito bom: é dedicado e empenhado. Por enquanto. Já foi mais! Começa a ter vontade de desistir e por isso, decidi não estudar com ele pelos livros ao fim de semana, temos que desenvolver a compreensão e a expressão escrita, mas não com livros, por isso se tiverem mais alguma sugestão, agradeço....
E como não convém que o G. perceba que estes jogos são estudo, não podemos ficar só por aí e decidimos em conjunto, fazermos nós próprios as decorações do nosso pinheiro de Natal.
Pois é! Fizemos fitas, bolas, um Pai Natal, estrelas e muitas outras decorações. Quando digo fizemos, é obvio que o G. também fez, mas querer que um hiperactivo se dedique a trabalhos manuais por mais de 10 minutos é utópico, não? Claro que o grosso do trabalho foi meu, mas o resultado final não foi mau, o que acham?

publicado por Abigai às 12:42

Novembro 23 2011

Definitivamente, este ano está a ser muito difícil....

Canso-me de tanto tentar fazer valer os direitos do G. e ele, por seu lado, arranja sempre forma de complicar ainda mais a situação!

Tenho perfeita consciência que o G. tem PHDA, sei que é uma perturbação que se caracteriza por défice de atenção / concentração, impulsividade e/ou hiperactividade / actividade motora excessiva. Sei que uma criança com PHDA pode ter dificuldades entre outros em:

- manter a atenção até ao final de uma tarefa,

- prestar atenção a dois estímulos em simultâneo,

- reflectir antes de agir,

- prever as consequências das suas acções,

- seguir normas estabelecidas,

e que além disso crianças com PHDA apresentam ainda outras características como:

- fazem barulhos ou sons desadequados,

- são imprevisíveis, distraídos,

- podem ser facilmente exploradas pelos outros,

- etc.

Sei disso tudo e muito mais, já são anos de treino, experiência, pesquisas e trocas de impressões com outras famílias na mesma situação.

Mas saber não invalida o facto de ter obrigações nomeadamente na educação do G., quer em casa quer na escola.

Em casa temos muitas regras. As regras são sempre importantes em qualquer educação, muito mais ainda na educação de uma criança hiperactiva. Uma destas regras tem a ver com os jogos de computador ou consolas. Tirando os períodos de férias em que a liberdade é um pouco maior, em dias de semana o G. não pode jogar. Sextas à noite num período de tempo de cerca de uma hora, sábados e domingos, pode embora também com horários definidos e tempos máximos. O G. tem televisão no quarto que comprou com o dinheiro que vai recebendo das avós e afins, dinheiro que foi juntando para também aprender a dar valor ao custo da vida, mas ter televisão no quarto também não invalida que hajam regras e horários para ligá-la. Por norma, de manhã depois de pronto para sair, pode ver um pouco de televisão.

Segunda-feira passada, quando o fui buscar ao ATL, antes mesmo de me cumprimentar, o G. contou-me que se portou muito mal, que teve um castigo, mas que a professora nem escreveu nada na caderneta. Foi na aula de Língua Portuguesa - a professora não é a mesma que dá apoio educativo a Português! O G. lembrou-se de desfazer a borracha em pequenos pedaços e atirar aos colegas. Quando a professora se apercebeu, já toda a turma estava a atirar com bocados de borracha. Foi bastante divertido! Resultado: a borracha desapareceu - a mãe que compre outra, pois não tem mais o que fazer ao dinheiro! -, e o G. teve que escrever 40 vezes: "não devo atirar com borrachas na sala de aulas", na sala da directora de turma! Não tenho nada a opor, o G. fez asneiras e sofreu as consequências.

Confesso que fiquei furiosa com ele e garanti-lhe ainda no carro a caminho de casa que não haveria de deixá-lo esquecer o que fez. Uma coisa é estar desatento, distrair-se, não estar quieto, reagir aos estímulos exteriores ou falar alto sem mais nem porquê, isso até consigo compreender que não tenha ainda capacidade para controlar, outra coisa é iniciar e incentivar tal barafunda na sala de aulas, arruinando também a minha carteira, pois... porque borrachas e lápis é à dúzia por semana!

Assim fui pensando pelo caminha como haveria de castigá-lo em casa e fazer com que não esquecesse que tinha que saber comportar-se. Proibí-lo de jogar não teria efeitos imediatos pois ainda faltavam 5 dias para o fim-de-semana, bater-lhe também não era solução e havia ainda o problema da memória curta... amanhã já não se iria recordar do porquê do castigo.

Foi então que se fez luz na minha cabeça. Quando cheguei a casa, liguei logo o computador e preparei duas folhas: a primeira dizia assim "segunda-feira dia 21 portei-me mal na aula de Português atirando com borrachas aos colegas. Por isso fui castigado. Até ao final da semana estou proibido de jogar playstation, jogar computador, jogar wii. Tenho que aprender a comportar-me e que os meus actos têm consequências.",

a segundo dizia quase o mesmo à excepção do castigo que era "(...) ver televisão de manhã."

Não disse nada ao G. e fui afixar cada uma das folhas nos seus respectivos lugares, ou seja, no monitor do computador e na televisão. O G. nem questionou, ficou completamente atónico e quando olhei para ele, apenas vi uns olhos cheios de água e uma lágrima a correr pela face...

Partiu-me o coração vê-lo assim de tão notória que era a tristeza e o sofrimento...

Nunca nenhum castigo surtiu tanto efeito. Nunca nenhum castigo me custou tanto.

Assim, e até Domingo, as folhas vão continuar afixadas e o G. não vai esquecer o que fez nem o motivo do castigo e de não poder jogar. Todos os dias de manhã, vejo-o a olhar para as folhas, com um olhar triste e conformado.

No dia seguinte, falei com o psicólogo para avaliar se a estratégia era adequada ao que aconteceu ou não. Concordou e reforçou o facto de que é mesmo fundamental estabelecer limites e que o G. entenda porque é castigado.

Parece-me que está a resultar, pelo menos, além da resposta da professora de apoio ao recado que deixei, não tem vindo mais nada na caderneta. E dessa resposta que já levou a um pedido de esclarecimentos à DREN, falarei num próximo post que este já vai longo!

 

publicado por Abigai às 14:17

Novembro 16 2011

 

 

Revolta. É revolta que sinto hoje.
De há uns dias para cá, têm vindo muitos recados na caderneta do G., queixas relativas à sua falta de atenção nas aulas, - algo que me parece realmente estranho vindo de uma criança com PHDA! -, e também sobre a falta de conhecimentos.
Estranho!
Eu que pensava que o G. era um menino exemplar, repleto de sabedoria e sem qualquer tipo de dificuldades!
À professora de Matemática resolvi responder. Queixou-se que o G. não sabe a tabuada, não sabe fazer contas e não presta atenção.
Pois bem, pelos vistos é sabido mas alguns professores não sabem:

 

"É difícil separar os problemas de atenção dos problemas de memória. Se não somos capazes de estar atentos a uma informação, dificilmente conseguimos apreendê-la, integrá-la e armazená-la. Normalmente estas crianças têm uma boa memória a longo prazo mas a sua memória a curto prazo e a memória de trabalho deixam muito a desejar. Recordam-se do que aconteceu há um ano, mas têm muita dificuldade em reproduzir o que se lhes acabou de explicar."
(...)
"Memória de trabalho. Refere-se à capacidade de reter vários tipos de informação ao mesmo tempo. Se não somos capazes de representar mentalmente vários números, não podemos fazer cálculos mentais. Se queremos compreender o que lemos, temos que ser capazes de recordar as palavras do princípio de um parágrafo quando chegamos ao fim."
(...)
"Matemática. (...) Muitas crianças têm também uma discalculia - custa-lhes entender o tamanho relativo das figuras, aprender as tabuadas, recordar sequências de dígitos, entender o significado dos sinais e compreender conceitos matemáticos avançados."

 

Logo no dia seguinte, recebo mais um recado, desta vez da professora de apoio de Lingua Portuguesa que dizia mais ou menos assim: "o G. não presta atenção à aula, distrai-se e fala. Vou dar mais uma oportunidade, a continuar assim deixa de frequentar o apoio. Compreendo o problema de concentração, mas há limites."
Esta foi a gota!
Há limites sim! Há limites para a falta de informação dos professores - para não dizer ignorância -, há limites para a incapacidade das escolas em cumprir com as suas funções e obrigações de integrar todas as crianças, em proporcionar recursos pedagógicos para crianças com dificuldades específicas de aprendizagem. Há limites para tanta incompetência, ou não é esta uma escola inclusiva?
É este o futuro que queremos para as nossas crianças? Ensiná-las a marginalizar, a excluir aqueles que não se enquadram na norma?
O que devo dizer? Como resolver os problemas de atenção do G.?
Já sei! Vou começar a bater-lhe, talvez passe a comportar-se melhor, ou porque não, amarrá-lo à cadeira? Não... talvez fechá-lo numa sala sozinho durante o tempo lectivo para não incomodar ninguém?
Vou ter que sugerir estas soluções à escola, talvez resolva o problema....

 

O G. está medicado com metilfenidato. O G. tem terapia psicológica semanalmente, - e só eu sei o quanto me custa pagar as consultas! O G. vai regularmente às consultas de desenvolvimento no Hospital S. João. O G. foi sinalizado à escola. Entreguei na escola todos os relatórios médicos do hospital, do diagnóstico de dislexia, do psicólogo, etc.. O G. está num centro de estudos para reforçar conhecimentos.
Acho que estou a cumprir com a minha parte de educadora.
E o que faz a escola?
Não contrata a psicóloga educacional que o acompanhava desde que foi sinalizado, nem outra qualquer. Não proporciona qualquer tipo de avaliação diferenciada. Não reforça positivamente qualquer esforço demonstrado. Não! A escola reprimenda. A escola ameaça excluí-lo do apoio!

 

“O princípio fundamental das escolas inclusivas consiste em todos os alunos aprenderem juntos, sempre que possível, independentemente das dificuldades e das diferenças que apresentem. Estas escolas devem reconhecer e satisfazer as necessidades diversas dos seus alunos, adaptando-se aos vários estilos e ritmos de aprendizagem, de modo a garantir um bom nível de educação para todos, através de currículos adequados, de uma boa organização escolar, de estratégias pedagógicas, de utilização de recursos e de uma cooperação com as várias comunidades. É preciso, portanto, um conjunto de apoios e serviços para satisfazer as necessidades especiais dentro da escola.”
“…as escolas devem acolher todas as crianças, independentemente das suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras. Devem incluir as crianças deficientes ou sobredotadas, as crianças de rua, e as que trabalham, as de populações nómadas ou remontas; as de minorias étnicas e linguísticas e as que pertencem a áreas ou grupos desfavorecidos ou marginalizados.”

UNESCO (1994) Declaração de Salamanca e Enquadramento da Acção na Área das Necessidades Educativas Especiais, Lisboa: Instituto de Inovação Educacional

publicado por Abigai às 11:28

Outubro 31 2011

Curiosamente, hoje, ainda estava a acabar de ler este post e tocou o telefone.

Era a directora de turma do G. a contactar-me no seguimento da conversa que tivemos na passada terça-feira.

Falou com o G. relativamente aos elementos que lhe transmiti, os medos, as inseguranças e a falta de atenção e empenho nas aulas, e ligou-me para dar-me o feedback da conversa.

Desde que o G. ingressou na escola, tem tido aparentemente e a julgar pelas notícias que têm sido divulgadas imensa sorte com os professores.

No 1º ano teve uma professora que além de ser professora era também psicóloga e tinha trabalhado nos último 10 anos com alunos do ensino especial. Foi um pouco graças a ela que o G. foi diagnosticado, pois, apesar de sentir e no fundo saber que algo estava errado com o G., resistia e recusava a ideia de poder ser hiperactivo. A compreensão desta professora, também mãe de um miúdo com Asperger, ajudou-me a ultrapassar esta fase e partir para o diagnóstico.

No 2º ano o G., já diagnosticado e medicado, mudou de escola e, inicialmente, tive alguma dificuldade com a professora que não acreditava que o G. fosse hiperactivo, talvez pelo facto de estar controlado, mas, com o tempo foi percebendo e entendendo as dificuldades que tinha. Aos poucos verificou as limitações e lacunas que tinha, pediu ajuda ao agrupamento, arranjou-lhe uma professora de apoio individualizado 3 vezes por semana para ajudar o G. a aprender a ler - só conseguiu aprender a ler quase no final do 2º ano -, e sinalizou-o no agrupamento encaminhando-o para a psicólogo educacional que já no 3º ano começou a ter consultas com ele semanalmente.

Mais tarde ingressou no 5º ano, na sede de agrupamento, que supostamente tinha o processo dele e deveria estar a par das dificuldades e do diagnóstico. Por falta de organização ou incompetência dos órgãos administrativos, a directora de turma não tinha conhecimento que o G. estava sinalizado com dificuldades de aprendizagem e hiperactividade, nem tão pouco sabia que nesses último 2 anos usufruía do apoio da psicóloga do agrupamento. Os primeiros tempos foram difíceis mas depois de tudo esclarecido, deparei-me com uma professora dedicada, interessada e preocupada.

Antes mesmo do ínicio do 6º ano, ainda no período de férias, quando soube que a psicóloga ainda não tinha sido contratada por faltas de verbas e que não havia indicações de vir a sê-lo, a directora de turma entrou em contacto comigo para me explicar o que estava a acontecer e para alertar-me com tempo caso tivesse possibilidades de arranjar fora um psicólogo para o G.

Hoje ligou-me para dar-me o feedback da conversa que teve o G. e aproveitei para falar-lhe de um problema que surgiu na passada 6ª feira na aula de EVT em que o G. foi castigado sem perceber - ou não quer dizer -, porquê.

Sei que vai averiguar o que se passou e que me irá informar.

Felizmente, posso dizer que não será por falta de empenho ou interesse dos professores que o G. irá ter mais ou menos dificuldades, pelo menos no que diz respeito à directora de turma, o que é bom.

Sei que o caminho é muito acidentado e vai levar tempo a chegar à meta, mas sei também que alguns obstáculo foram eliminados logo à partido.

Supostamente, a Educação é mesma para todos. A julgar pelas notícias, parece-me que não será bem assim...

 

publicado por Abigai às 15:23

Outubro 26 2011

Depois de ler a notícia no blog da Teresa e ainda o post do Jorge, não posso deixar de me sentir revoltada e preocupada. Revoltado sobretudo comigo mesma porque ler uma notícias destas devia deixar-me triste... mas apenas me fez pensar no meu G. e em todas as perturbações e aflições que sinto nele.
Sei que sou uma mãe atenta.
Não tenho a menor dúvida a este respeito, e foi por estar atenta aos sinais que procurei ajuda de um psicólogo.
Emocionalmente o G. é muito frágil - característica comum a maior parte dos hiperactivos -, preocupa-se em demasia com tudo e não fala. Não se abre nem connosco, nem com colegas ou amigos, não exterioriza as suas preocupações, as suas cismas, os seus muitos medos.
Ultimamente, sinto que algo se passa. O G. está mais nervoso, mais agitado.
Ontem, fui falar com a directora de turma. Precisava saber se estes sinais de perturbação acontecem apenas em casa ou também na escola. Saí de lá mais apreensiva.
O G. está mais agitado nas aulas, menos atento, mais "deixa andar".
Não tem aproveitado devidamente as aulas de apoio e, pela primeira vez desde que iniciou a medicação, ouvi queixas relativamente ao seu comportamento.
Não sei que pensar nem de que forma agir.
O G. tem a sorte de estar bem integrado numa boa turma. Tem colegas preocupados que o apoiam muito. Sei que não é vítima de bullying, não é gozado por ter dificuldades, e é bastante protegido pelos colegas.
Parece-me que o problema está essencialmente nele, na sua baixa auto-estima, no medo de falhar, de mostrar as dificuldades que sente, e no facto de se sentir diferente dos outros.
Estou convicta que algo mais se passa actualmente, algo o atormenta na escola mais do que o habitual, e descarrega em casa, à noite. Está mais agressivo, não faz nada à primeira, obedecer é uma utopia, responde a tudo e a todos e todas as tarefas diárias são um suplício.
Quando ouço notícias como estas, só posso mesmo ficar preocupada sobretudo depois de ouvir em várias ocasiões "mais vale morrer do que ser assim" da boca do meu menino...
Quando ouço notícias como estas, só posso mesmo questionar-me...
Onde falhei ou ainda, o que ainda não terei feito?

publicado por Abigai às 14:17

Outubro 20 2011

aqui falei sobre auto-estima, confiança e motivação.
Qualquer pessoa, seja ou não hiperactiva, necessita sentir-se reconhecida.
O reconhecimento das qualidades, sejam elas físicas, pessoais ou profissionais, permitem reforçar a auto-estima, tão importante para enfrentarmos a vida.
Há dias, quando vi o Abigai nos destaques do sapo, senti uma pitada de orgulho... Porquê? Simples, é uma forma de reconhecimento!
 

O G. é muito negativo, tem tendência a achar-se incapaz, inferior, nas palavras dele muitas vezes "burro", e fica paralisado ao mínimo obstáculo.
Acredito que a terapia que iniciou no passado sábado ajude a ultrapassar estes bloqueios que tanto o inibam de "viver".
É um menino muito esforçado na escola, está constantemente preocupado com os trabalhos de casa, com as regras e com tudo o que os professores poderão dizer, pensar ou fazer.
É com frequência chamado a atenção pelo professores porque demora muito a passar o que está escrito no quadro, porque tem que estudar mais, porque tem que se esforçar mais, etc...
À excepção feita da directora de turma e também professora de História, não se sente reconhecido, não sente que o esforço compensa, e por vezes noto nele a vontade de desistir.
Quando à noite revejo com ele os cadernos, os trabalhos de casa ou insisto com ele para em primeiro lugar colocar as obrigações e só depois o lazer, responde-me torto, refila, exalta-se e não há dia nenhum que não acabe com discussões, lições de moral e por vezes choros compulsivos.
 

Tento sempre reforçar a auto-estima do G. enaltecendo o esforço que faz, fazendo-lhe ver que por muito que parece injusto, uma criança com as dificuldades que tem precisa de estudar mais do que os colegas, que desde que se empenhe nunca irei ficar triste se trouxer notas baixas, mas remar contra a maré é difícil, cansativo e pouco compensatório.
Bastava que se sentisse reconhecido para não desanimar, para não desistir...
Será assim tão difícil um professor ver e compreender o esforço de uma criança com imensas dificuldade mas que leva sempre os trabalhos feitos, tem os cadernos impecáveis e, apesar de sinalizado com hiperactividade e défice de atenção, comporta-se bem na sala de aulas? Uma criança que mesmo não sabendo responder às perguntas dos testes não deixa um espaço em branco?
Será assim tão difícil um professor dar uma palavra de reconhecimento a uma criança tão necessitada de apoio, não de apoio escolar mas de uma simples palavra?
É claro que o facto de ter muitos medos e receios, de ser envergonhado e tímido, não ajuda.
É incapaz de perguntar a um professor o significado de uma palavra, de uma pergunta e tendo défice de compreensão, são muitas as vezes que responde ao lado da pergunta. Por um lado receia perguntar por timidez, por outro tem medo que o professor implique ou reaja mal por perguntar, para já não falar do pavor que tem em ser "gozado" pelos colegas. A aceitação dos outros é tão importantes nestas crianças.
 

Quero acreditar que consiga ultrapassar esta fase com a ajuda da terapia e do psicólogo mas temo que, sem a ajuda, disponibilidade e boa vontade dos professores, seja um esforço em vão.

publicado por Abigai às 15:17

Outubro 17 2011

Este fim-de-semana foi bem preenchido...
Sábado, acompanhei o G. à primeira consulta com o psicólogo.
Escolher um psicólogo não é tarefa fácil. O pediatra do G. há alguns anos atrás, aquando da necessidade de diagnosticar o que se passava com ele, aconselhou-nos um de que gostei imenso, que acompanhou muito bem o G. e o encaminhou para a consulta de desenvolvimento do Hospital S. João no Porto, mas que, além de não ser muito compatível em termos de localização, também não o era em termos de horários.
O G. está agora no 6º ano e tem um horário bastante preenchido. A médica da consulta de desenvolvimento recomendou-lhe terapia semanal e não esporádica.
Havia que encontrar forma de não perturbar o horário escolar do G. assim como também o meu, que a nível profissional é também ele muito preenchido. Além disso, faltar semanalmente ao trabalho para acompanhar o G. poderia tornar-se insustentável, até porque apenas iniciei esta actividade há 5 meses e não ficaria muito bem na fotografia.
Assim, e por indicação da mãe de um miúdo também hiperactivo que frequenta o mesmo ATL do G., encontrei a solução ideal. Esse rapaz, já com 17 anos, actualmente tem consulta de 15 em 15 dias. A mãe está muito satisfeita e confessa que a terapia que o filho faz há já alguns anos com este psicólogo tem feito "milagres".
É um psicólogo como outro qualquer - bom ou mau só o tempo o dirá, mas confesso ter ficado muito bem impressionada com a conversa que tivemos e a empatia que logo se gerou entre ele e o G., mas que dá consultas aos sábados de tarde, num local pouco habitual.
Tem um consultório num ginásio onde também é professor de boxe! Além de ter conseguido consultas num horário que não afecta em nada a vida escolar do G., o local é aprazível tornando a espera menos aborrecida! Eu trabalho ao sábado à tarde, o meu marido trabalha por turnos e por conseguinte nem sempre está disponível, mas sendo um sábado à tarde, até a avó o pode levar e uma vez que a consulta é com o G. e só esporadicamente o psicólogo irá convocar os pais, não vai afectar muito a minha vida profissional. Além disso, faz desconto aos sócios do ginásio, o que poderá ser benéfico quer para a nossa carteira, quer para a nossa saúde... enquanto se espera, podemos sempre fazer uns exercícios!
A consulta correu muito bem. Foi ainda a primeira, pelo que é ainda difícil dizer se vai surtir efeitos ou não, mas deu para ver que o G. gostou muito do psicólogo e sentiu-se em confiança, e isso é bom. Gostei da conversa, dos conselhos, da abordagem. A partir de agora vai consultar o G. uma vez por semana, reduzindo gradualmente quando achar que já não se justifica a frequência inicial. O G. ficou apenas cerca de 20 minutos sozinho com ele, sendo a primeira consulta, grande parte do tempo foi também comigo, pelo que ainda é cedo, quer para ver resultados no G., quer para o médico pronunciar-se sobre as frustrações, ansiedades ou fobias do G. Vai ser também uma forma de confirmar, com um especialista diferente, se o diagnóstico do G. está ou não correcto. O médico, não querendo desconfiar dos relatórios que lhe entreguei, avisou-me logo que iria também ele fazer o seu diagnóstico, até porque é essencial para ajudar o G.
Ajudar... assim o espero.
Como tive que faltar ao trabalho para levar o G. à consulta, aproveitei a oportunidade para me fazer de convidada do meu patrão, no Montijo! Assim, após a consulta rumamos ao Montijo, uma viagem de 3 horas, cansativa mas bem humorada. O G. passou o tempo todo a cantar, a falar, a gritar também, mas boa disposição, não faltou.
Quando chegamos, fomos directos à pensão que o meu patrão reservou para nós e aí é que o G. começou a "passar-se". Nunca tinha passado nenhuma noite fora a não ser em casa de familiares ou amigos. Era um mundo novo para ele. E era apenas uma pensão, nada de luxuoso ou extravagante, mas para ele fantástico.
Um quarto simples, com 3 camas, casa de banho, varanda e TV. "Ao mãe... temos que fazer as camas de manhã?... não!... a sério?... eles fazem?" Tanta inocência! Estava completamente aturdido com tanta novidade.
Fomos jantar com os colegas das outras lojas que eu ainda não conhecia e com o patrão, obviamente... e o G. estava maravilhado com tudo. A seguir ao jantar ainda fomos a um bar e aí é que começou a aquecer... "Ao mãe... isto é que é a "night"?... que fixe!... e olha, aquelas meninas? Que saias curtas! Têm as pernas completamente à mostra! Que fixe, mãe!"
E eu a pensar baixinho... saias? que saias?
Portou-se lindamente e aguentou-se até às 2 da manhã sem se queixar! As 7h30 do dia seguinte, já nos estava a tirar da cama porque o dia começa cedo e há muito que ver e fazer!
Quando descemos para tomar pequeno almoço, foi mais uma vez um espanto para o G. Ser servido e poder escolher foi para ele algo realmente fantástico e maravilhoso. Quando o empregado lhe perguntou se preferia leite achocolatado, olhou para mim dubitativo e perguntou "posso mãe?... não pagas mais?". O espanto dele era imenso, ter a mesa posta, o leite, pão, uns pacotes de manteiga, queijo, doce de morango, à discrição, sem ter que pedir, sem ter que pagar mais por isso... E não era um hotel, apenas uma pequena pensão!
Agora, quero mesmo levá-lo um dia destes a um hotel para que veja não só a diferença, mas também para eu ver o espanto dele, a alegria.
Após visitarmos a fábrica na manhã de Domingo e darmos por concluída a visita de trabalho, rumamos ao Parque das Nações, para almoçar e passear.
Foi um dia muito bem passado, cansativo porque ainda nos esperava uma viagem de 3 horas de regresso a casa, mas valeu bem à pena, nem que seja só pela felicidade chapada no rosto do meu G., felicidade, alegria, espanto e satisfação.
Temos mesmo que fazer isso mais vezes, mas talvez mais perto também!

 

Imagem da internet

publicado por Abigai às 18:35

Setembro 16 2011

 

 

Pois é....

Já era de prever mas não pensei que fosse já no primeiro dia de aulas!

 

Ontem, quando olhei para o horário fiquei apavorada.

Nos cinco dias de aulas, três têm apenas um intervalo de uma hora para o almoço.

Conclusão: o G. tem que ficar a almoçar na escola pois não dá tempo para o ATL ir buscá-lo, almoçar, e levá-lo de volta para as aulas da tarde.

 

E hoje, foi um desses dias.

Por volta das 13h00 recebo uma chamada da mãe do R., amigo do G. O R. ligou à mãe, preocupado, porque o G. ia ficar sem almoçar por não ter adquirido a senha de almoço atempadamente.

O G., apesar de hiperactivo, é muito tímido, tem muitos medos, receios e acanha-se na hora de pedir ajuda ou ter que falar com alguém que não seja mãe, pai ou amigos.

Não foi capaz de ir à secretaria pedir ajuda, nem a nenhum auxiliar, nem tão pouco a nenhum colega. O buffet ainda estava fechado, as máquinas alimentares da escola ainda não tinham sido carregadas.

Valeu-lhe o R. que lhe deu uma maçã e se preocupou ligando à mãe a contar o sucedido.

Ainda deu tempo ao pai de chegar à escola antes do primeiro tempo da tarde e levar-lhe um lanche.

 

Um lanche não é uma refeição! Deu para remediar, mas a continuar assim, voltamos à perda da peso como aconteceu o ano passado, às reacções agressivas, à queda da auto-estima, etc.

No ATL tem sempre supervisão e não o deixam ficar sem almoço, sabem que é medicado e que o apetite é pouco e por isso são também mais vigilantes. Na escola ninguém se preocupa... Se não tiver apetite, não come e ponto final, quem vai reparar?

Só tenho que agradecer ao R. e esperar que continue amigo do G., atento e preocupado.

publicado por Abigai às 14:29

Setembro 14 2011

 

Amanhã é dia de apresentação a este novo ano lectivo.

Amanhã!

Mas hoje, ainda não eram 9h da manhã recebi um telefonema da directora de turma do G., a mesma do ano anterior. Uma chamada de preocupação - o que à partida agradou-me, pelo menos mostrou muito interesse na evolução do G., porque acabava de ser informada que este ano, a escola ainda não tinha autorização nem verbas, para a contratação da psicóloga educacional.

A professora queria saber se o G. tinha algum acompanhamento fora da escola ou, caso não tivesse, se podia tratar de encaminhá-lo para algum psicólogo uma vez que ele tanto precisa e a escola não o irá providenciar, pelo menos no primeiro período.

Ainda não há certezas quanto ao segundo periodo, poderá eventualmente haver contratações em Janeiro, mas por agora, confirma-se que a Dra. M. não estará presente para prestar apoio ao G. ou a qualquer outra criança.

Compreendo a preocupação da professora. O alerta dela foi bem intencionado e mostrou sem dúvida que está atenta e o interesse que tem pelos seus alunos. O G. não é o único menino da turma a beneficiar deste acompanhamento e não será o único prejudicado, o que irá também complicar a tarefa dos demais professores.

Como cheguei a referir aqui já tencionava proporcionar uma terapia mais adaptada às necessidades do G., em complemento ao acompanhamento da psicóloga da escola direccionado para a vertente educacional e de dificuldades de aprendizagem e compreensão.

 

Assim, já estava preparada para assumir um custo adicional, fora da escola.

E o que não fazemos pelos nossos filhos, não é?

Penso conseguir proporcionar ao G. este acompanhamento e se, por ventura, acontecer algum imprevisto financeiro, sei também que terei sempre alguém por perto para ajudar no que for necessário.

Felizmente tenho esta sorte. E os outros meninos cujas famílias não podem suportar estes encargos? O que vai ser deles?

Tenho agora preocupações acrescidas. Além de tentar ultrapassar as dificuldades emocionais do G., a psicóloga que irei contratar terá também que ajudar na parte educacional de desenvolvimento cognitivo.

Por outro lado, avizinham-se tempos iniciais difíceis porque, sempre que o G. se sentia diminuído, frágil ou simplesmente como peixe fora do aquário, recorria à Dra. M., que com muito carinho, compreensão e dedicação, conseguia ajudá-lo a reencontrar o caminho. Além disso, quando o G. não estava bem e não se abria connosco, a Dra. M. conseguia alcançá-lo.

Agora, sem ela por perto, vamos ver como irá correr!

publicado por Abigai às 14:14

Porque foi a primeira palavra do meu filho, e de nada querer dizer, diz-me muito...
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