Abigai

Outubro 17 2011

Este fim-de-semana foi bem preenchido...
Sábado, acompanhei o G. à primeira consulta com o psicólogo.
Escolher um psicólogo não é tarefa fácil. O pediatra do G. há alguns anos atrás, aquando da necessidade de diagnosticar o que se passava com ele, aconselhou-nos um de que gostei imenso, que acompanhou muito bem o G. e o encaminhou para a consulta de desenvolvimento do Hospital S. João no Porto, mas que, além de não ser muito compatível em termos de localização, também não o era em termos de horários.
O G. está agora no 6º ano e tem um horário bastante preenchido. A médica da consulta de desenvolvimento recomendou-lhe terapia semanal e não esporádica.
Havia que encontrar forma de não perturbar o horário escolar do G. assim como também o meu, que a nível profissional é também ele muito preenchido. Além disso, faltar semanalmente ao trabalho para acompanhar o G. poderia tornar-se insustentável, até porque apenas iniciei esta actividade há 5 meses e não ficaria muito bem na fotografia.
Assim, e por indicação da mãe de um miúdo também hiperactivo que frequenta o mesmo ATL do G., encontrei a solução ideal. Esse rapaz, já com 17 anos, actualmente tem consulta de 15 em 15 dias. A mãe está muito satisfeita e confessa que a terapia que o filho faz há já alguns anos com este psicólogo tem feito "milagres".
É um psicólogo como outro qualquer - bom ou mau só o tempo o dirá, mas confesso ter ficado muito bem impressionada com a conversa que tivemos e a empatia que logo se gerou entre ele e o G., mas que dá consultas aos sábados de tarde, num local pouco habitual.
Tem um consultório num ginásio onde também é professor de boxe! Além de ter conseguido consultas num horário que não afecta em nada a vida escolar do G., o local é aprazível tornando a espera menos aborrecida! Eu trabalho ao sábado à tarde, o meu marido trabalha por turnos e por conseguinte nem sempre está disponível, mas sendo um sábado à tarde, até a avó o pode levar e uma vez que a consulta é com o G. e só esporadicamente o psicólogo irá convocar os pais, não vai afectar muito a minha vida profissional. Além disso, faz desconto aos sócios do ginásio, o que poderá ser benéfico quer para a nossa carteira, quer para a nossa saúde... enquanto se espera, podemos sempre fazer uns exercícios!
A consulta correu muito bem. Foi ainda a primeira, pelo que é ainda difícil dizer se vai surtir efeitos ou não, mas deu para ver que o G. gostou muito do psicólogo e sentiu-se em confiança, e isso é bom. Gostei da conversa, dos conselhos, da abordagem. A partir de agora vai consultar o G. uma vez por semana, reduzindo gradualmente quando achar que já não se justifica a frequência inicial. O G. ficou apenas cerca de 20 minutos sozinho com ele, sendo a primeira consulta, grande parte do tempo foi também comigo, pelo que ainda é cedo, quer para ver resultados no G., quer para o médico pronunciar-se sobre as frustrações, ansiedades ou fobias do G. Vai ser também uma forma de confirmar, com um especialista diferente, se o diagnóstico do G. está ou não correcto. O médico, não querendo desconfiar dos relatórios que lhe entreguei, avisou-me logo que iria também ele fazer o seu diagnóstico, até porque é essencial para ajudar o G.
Ajudar... assim o espero.
Como tive que faltar ao trabalho para levar o G. à consulta, aproveitei a oportunidade para me fazer de convidada do meu patrão, no Montijo! Assim, após a consulta rumamos ao Montijo, uma viagem de 3 horas, cansativa mas bem humorada. O G. passou o tempo todo a cantar, a falar, a gritar também, mas boa disposição, não faltou.
Quando chegamos, fomos directos à pensão que o meu patrão reservou para nós e aí é que o G. começou a "passar-se". Nunca tinha passado nenhuma noite fora a não ser em casa de familiares ou amigos. Era um mundo novo para ele. E era apenas uma pensão, nada de luxuoso ou extravagante, mas para ele fantástico.
Um quarto simples, com 3 camas, casa de banho, varanda e TV. "Ao mãe... temos que fazer as camas de manhã?... não!... a sério?... eles fazem?" Tanta inocência! Estava completamente aturdido com tanta novidade.
Fomos jantar com os colegas das outras lojas que eu ainda não conhecia e com o patrão, obviamente... e o G. estava maravilhado com tudo. A seguir ao jantar ainda fomos a um bar e aí é que começou a aquecer... "Ao mãe... isto é que é a "night"?... que fixe!... e olha, aquelas meninas? Que saias curtas! Têm as pernas completamente à mostra! Que fixe, mãe!"
E eu a pensar baixinho... saias? que saias?
Portou-se lindamente e aguentou-se até às 2 da manhã sem se queixar! As 7h30 do dia seguinte, já nos estava a tirar da cama porque o dia começa cedo e há muito que ver e fazer!
Quando descemos para tomar pequeno almoço, foi mais uma vez um espanto para o G. Ser servido e poder escolher foi para ele algo realmente fantástico e maravilhoso. Quando o empregado lhe perguntou se preferia leite achocolatado, olhou para mim dubitativo e perguntou "posso mãe?... não pagas mais?". O espanto dele era imenso, ter a mesa posta, o leite, pão, uns pacotes de manteiga, queijo, doce de morango, à discrição, sem ter que pedir, sem ter que pagar mais por isso... E não era um hotel, apenas uma pequena pensão!
Agora, quero mesmo levá-lo um dia destes a um hotel para que veja não só a diferença, mas também para eu ver o espanto dele, a alegria.
Após visitarmos a fábrica na manhã de Domingo e darmos por concluída a visita de trabalho, rumamos ao Parque das Nações, para almoçar e passear.
Foi um dia muito bem passado, cansativo porque ainda nos esperava uma viagem de 3 horas de regresso a casa, mas valeu bem à pena, nem que seja só pela felicidade chapada no rosto do meu G., felicidade, alegria, espanto e satisfação.
Temos mesmo que fazer isso mais vezes, mas talvez mais perto também!

 

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publicado por Abigai às 18:35

Setembro 19 2011

 

O G. de cada vez mais se parece com uma criança de 10 anos...

Fico com um sorriso nos lábios, parada, a olhar para ele, a observá-lo brincar.

Brincar! Há bem pouco tempo atrás, o G. não brincava, não sabia brincar. Sabia andar atrás de mim, sempre a falar, a gritar, sabia jogar PlayStation, sabia fazer as mais disparatadas asneiras, sabia queixar-se, sabia exigir companhia, mas não sabia brincar.

Hoje, vejo-o no quarto, a atacar castelos com os seus cavaleiros, a combater os "maus", orgulhoso e a chamar-me para ver como sabe fazer... "vês mamã a minha brincadeira"!

Sábado, quando cheguei a casa após o trabalho, estava na sala, a criar vulcões, castelos, ruas e montanhas com plasticina.

Usou uma plasticina comprada há uns 3 anos a pedido da professora, mas que nunca tinha sido usada, e que, apesar de ainda lacrada, já estava um pouco seca.

E então lembrei-me que tinha ainda umas embalagens de barro muito bem guardadas.

Há uns anos atrás fazia esculturas com barro mas a vida vai passando, o tempo vai escasseando e deixamos de lado aqueles passatempos que tanto gostamos...

Assim, no domingo, preparei a mesa com barro, água, alguns panos velhos e, armados de aventais e muita paciências, eu e o G. lançamos mãos à obra na criação de "obras de arte".

Foi divertido e uma novidade para o G. Simplesmente adorou. Diferente da plasticina, deu asas à imaginação, adorou poder sujar-se à vontade, besuntando as mãos até fartar, sem ter a mãe à perna a ralhar! O sonho de qualquer crianças, ainda mais se for hiperactiva!

Fez umas lindas peças um tanto ao quanto estranhas. Na verdade, confesso ter ficado sem perceber muito bem o que representavam, mas o essencial estava lá e atingimos de facto o objectivo principal: o G. estava radiante, feliz e muito divertido. Foi um momento de qualidade passado a dois.

Infelizmente foi também um momento de grande frustração para mim e mais um em que tive que encarar a dura realidade.

Além de já não ter "mão" para a escultura devido aos anos passado sem praticar, percebi da pior maneira que as minhas mãos já não servem de instrumento! As dores ao tentar moldar o barro eram execráveis e hoje, para escrever tenho que fazer um esforço enorme.

Está visto que melhoras não haverá e que vou ter mesmo que me convencer que já não posso continuar a fazer as mesmas coisas como se nada tivesse.

 

Imagem da internet

publicado por Abigai às 11:20
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Setembro 16 2011

 

 

Pois é....

Já era de prever mas não pensei que fosse já no primeiro dia de aulas!

 

Ontem, quando olhei para o horário fiquei apavorada.

Nos cinco dias de aulas, três têm apenas um intervalo de uma hora para o almoço.

Conclusão: o G. tem que ficar a almoçar na escola pois não dá tempo para o ATL ir buscá-lo, almoçar, e levá-lo de volta para as aulas da tarde.

 

E hoje, foi um desses dias.

Por volta das 13h00 recebo uma chamada da mãe do R., amigo do G. O R. ligou à mãe, preocupado, porque o G. ia ficar sem almoçar por não ter adquirido a senha de almoço atempadamente.

O G., apesar de hiperactivo, é muito tímido, tem muitos medos, receios e acanha-se na hora de pedir ajuda ou ter que falar com alguém que não seja mãe, pai ou amigos.

Não foi capaz de ir à secretaria pedir ajuda, nem a nenhum auxiliar, nem tão pouco a nenhum colega. O buffet ainda estava fechado, as máquinas alimentares da escola ainda não tinham sido carregadas.

Valeu-lhe o R. que lhe deu uma maçã e se preocupou ligando à mãe a contar o sucedido.

Ainda deu tempo ao pai de chegar à escola antes do primeiro tempo da tarde e levar-lhe um lanche.

 

Um lanche não é uma refeição! Deu para remediar, mas a continuar assim, voltamos à perda da peso como aconteceu o ano passado, às reacções agressivas, à queda da auto-estima, etc.

No ATL tem sempre supervisão e não o deixam ficar sem almoço, sabem que é medicado e que o apetite é pouco e por isso são também mais vigilantes. Na escola ninguém se preocupa... Se não tiver apetite, não come e ponto final, quem vai reparar?

Só tenho que agradecer ao R. e esperar que continue amigo do G., atento e preocupado.

publicado por Abigai às 14:29

Setembro 14 2011

 

Amanhã é dia de apresentação a este novo ano lectivo.

Amanhã!

Mas hoje, ainda não eram 9h da manhã recebi um telefonema da directora de turma do G., a mesma do ano anterior. Uma chamada de preocupação - o que à partida agradou-me, pelo menos mostrou muito interesse na evolução do G., porque acabava de ser informada que este ano, a escola ainda não tinha autorização nem verbas, para a contratação da psicóloga educacional.

A professora queria saber se o G. tinha algum acompanhamento fora da escola ou, caso não tivesse, se podia tratar de encaminhá-lo para algum psicólogo uma vez que ele tanto precisa e a escola não o irá providenciar, pelo menos no primeiro período.

Ainda não há certezas quanto ao segundo periodo, poderá eventualmente haver contratações em Janeiro, mas por agora, confirma-se que a Dra. M. não estará presente para prestar apoio ao G. ou a qualquer outra criança.

Compreendo a preocupação da professora. O alerta dela foi bem intencionado e mostrou sem dúvida que está atenta e o interesse que tem pelos seus alunos. O G. não é o único menino da turma a beneficiar deste acompanhamento e não será o único prejudicado, o que irá também complicar a tarefa dos demais professores.

Como cheguei a referir aqui já tencionava proporcionar uma terapia mais adaptada às necessidades do G., em complemento ao acompanhamento da psicóloga da escola direccionado para a vertente educacional e de dificuldades de aprendizagem e compreensão.

 

Assim, já estava preparada para assumir um custo adicional, fora da escola.

E o que não fazemos pelos nossos filhos, não é?

Penso conseguir proporcionar ao G. este acompanhamento e se, por ventura, acontecer algum imprevisto financeiro, sei também que terei sempre alguém por perto para ajudar no que for necessário.

Felizmente tenho esta sorte. E os outros meninos cujas famílias não podem suportar estes encargos? O que vai ser deles?

Tenho agora preocupações acrescidas. Além de tentar ultrapassar as dificuldades emocionais do G., a psicóloga que irei contratar terá também que ajudar na parte educacional de desenvolvimento cognitivo.

Por outro lado, avizinham-se tempos iniciais difíceis porque, sempre que o G. se sentia diminuído, frágil ou simplesmente como peixe fora do aquário, recorria à Dra. M., que com muito carinho, compreensão e dedicação, conseguia ajudá-lo a reencontrar o caminho. Além disso, quando o G. não estava bem e não se abria connosco, a Dra. M. conseguia alcançá-lo.

Agora, sem ela por perto, vamos ver como irá correr!

publicado por Abigai às 14:14

Setembro 08 2011

 

Estamos finalmente a chegar ao final deste longo período de férias escolares....

Triste é dizer finalmente!

Pois é... contrariamente ao que dizia aqui, resolvi interromper a medicação do G. no período de férias.

Para ele, passaram num ápice, para mim foram intermináveis!

Na passada segunda-feira retomou a rotina diária de toma da medicação e ida para o ATL, afim de preparar-se para o ano lectivo que aí vem.

A recusa foi imediata e previsível mas até nem correu muito mal!

Nesse mesmo dia fomos à consulta de desenvolvimento no Hospital S. João. Ninguém diria que o G. estava medicado, se não o tivesse visto tomar o comprimido teria jurado que me tinha enganado fingindo tomá-lo, mas não... eu vi mesmo!

A energia estava em alta, o apetite também... às 11h00 da manhã dizia-se esfomeado e comeu um menu completo do McDonald's, coisa que até há bem pouco tempo não queria pois não considerava isso “comida”! Confesso que fiquei espantada a olhar para ele e a perguntar-me se tinha falhado algum episódio....

Pois bem, segundo a médica o G. precisa de apoio psicológico com maior frequência, de preferência semanalmente. A cada dia que passa está mais inseguro, com mais medos e ansiedade.

No primeiro dia de ATL estava com medo de entrar... “e se não estiverem agora na sala do costume?”, “e se eu não os encontrar?”, e se se se.... dizia ele. Anda naquele ATL há 5 anos, conhece toda a gente, tem lá imensos amigos e mesmo assim, como já não ia lá há 1 mês estava com medo e envergonhado. Não é lá muito normal pois não?

Já não é capaz de sair da nossa beira sozinho, nem sequer para ir para o próprio quarto, tem medo até de se deslocar em casa, temos que o acompanhar constantemente e sinceramente está a tornar-se totalmente insustentável.

O início do ano lectivo está a aproximar-se a passos grandes e a ansiedade vai aumentando, tem medo de já não saber onde estão as salas de aulas, dos amigos já não se interessarem por ele, etc...

Fica angustiado por anticipação, o que não ajuda.

Agora deixou-me a mim angustiada à espera do horário para tentar marcar consultas sem interferir nas aulas... mas ainda vou ter que aguardar pelos horários das aulas de apoio!

E ainda nem começou....

 

publicado por Abigai às 11:02

Maio 30 2011

 

 

Estou sentada a olhar para o monitor, impávida e serena como raramente me sinto.

Penso na vida, nos sonhos realizados e nos que faltam ainda realizar.

Penso na minha família, no meu filho, na vida atarefada e agitada que levamos, nas horas contadas, nas correria, enfim... na vida a cem, ao bom sabor do G.

Penso no futuro, ou será o presente?

Penso nesta doença que me aflige e atormenta. Não que as dores estejam presentes e me lembrem do que aí vem. Felizmente o tratamento iniciado há pouco mais de um mês tem surtido efeito e a maior parte do dia é passada sem dores. Mas as dores não são tudo, há ainda muito para além delas. A cada dia que passa sinto que a rigidez aumenta, os movimentos são mais lentos, mas empenados, mais pesados. As noites são sempre difíceis e por mais que tente esquecer o que se avizinha, elas encarregam-se de me lembrar que o pior ainda está para vir.

E penso....

Penso na minha mãe, no peso que carrega diariamente, nas dificuldades de locomoção que a perseguem, mas também na força de vontade que tem, na resistência à adversidade, na capacidade que tem em aguentar as dores e seguir em frente, conseguindo ainda fazer as lidas da casa, arranjando até afazeres desnecessário, talvez uma forma de ocupar o tempo e não pensar...

Penso na minha obsessão pelo trabalho, e percebo.

Percebo que aqui, frente a este monitor, longe de mim e da vida, sinto-me alguém, sinto-me capaz.

Penso que não aguentaria o que a minha mãe aguenta, que não suportaria sentir-me um peso para os outros, sentir-me dependente.

É frequente a minha mãe deixar entender que se sente um 'estorvo', que 'só dá trabalho'. Nessas alturas aborreço-me com ela e tento que entenda que não me custa nada, que tudo o que faço, todos os 'sacrifícios' ou 'escolhas' que tive que fazer para ficar junto dela não são nada comparado com o amor que sinto. Não sinto de maneira alguma estas opções como um frete, como uma obrigação. É claro que por vezes incomodo-me com certas 'exigências' que faz, é certo que não temos os mesmos princípios no que diz respeito à manutenção do lar e que tenho que ceder em algumas coisas, não vou dizer que é tudo 'cor-de-rosa', a convivência de várias pessoas no mesmo espaço leva sempre a alguns conflitos, só temos que saber lidar com eles, fazer algumas concessões e seguir em frente. Mas no geral, tem sido um prazer estar com ela, 'cuidar' dela, não que precise de um apoio constante, ainda é perfeitamente independente, mas precisa de ajuda em algumas tarefas uma vez que tem algumas limitações motoras. Sei que pode deitar-se sozinha, mas também sei que se a ajudar, será menos penoso, então espero o fim das novelas na TV e acompanho-a até à cama, é um miminho que me faz bem, é algo que irá ficar mais tarde, que me irá trazer também algum consolo, é um momento nosso, um momento de partilha e amor.

Quantas vezes me aconchegou na cama quando eu era pequena? Muitas, sem dúvida... Agora é a minha vez e acreditem, é uma sensação muito boa.

Apesar de ser um prazer para mim estar presente e, apesar de não o verbalizar, percebo que se sente um peso na minha vida. Não o é, garanto.

Atormenta-me pensar que um dia irei sentir isso. Não devia, eu sei, estou agora deste lado e não sinto este apoio que dou como uma obrigação, como um peso, então porque receio sê-lo no futuro?

Estou sentada a olhar para o monitor e penso...

Penso porque não estou ocupada. Pensar complica tudo...

Iniciei há pouco uma nova carreira profissional, um novo projecto ainda pouco divulgado e acontece ter momentos mortos, sem nada com que me ocupar.

É mau, muito mau... É mau porque em vez de viver o momento presente, o dia-a-dia, penso no futuro incerto e imprevisível como o é para todos, mas tenho um exemplo em casa do que pode vir a ser e o que mais queria era fugir dele...

 

Imagem retirada da Internet

publicado por Abigai às 16:26

Maio 12 2010

A convite da Teresa, no passado sábado, o meu marido, o G. e eu, rumamos até S. João da Madeira para participar no seminário "Hiperactividade: Quando a Energia não acaba...".

Apesar de toda a informação sobre a Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção (PHDA), de todas as pesquisas, dos contactos conseguidos através da internet e blogs que visito diariamente, nunca tinha participado nem assistido a nenhum evento deste tipo.

Quando a Teresa me convidou para testemunhar da minha experiência como mãe de uma criança com PHDA, senti um misto de excitação e pavor.

Sou de natureza reservada e muito tímida e falar em público não me entusiasma de forma alguma.

Contudo, aceitei de imediato, pois se quero ajudar o meu filho a ultrapassar as suas fobias, talvez não seja pior ultrapassar primeiro eu as minhas.

A verdade é que adorei ter aceite este desafio.

Foi uma experiência muito positiva.

Não estava minimamente preparada mas uma vez iniciada a minha intervenção, penso que fluiu naturalmente e não correu muito mal.

Fiquei satisfeita por perceber que afinal até nem é muito difícil!

Sinceramente, já nem sei muito bem do que falei, sei apenas que não falei do que tinha imaginado falar!

Não falei nas mais simples tarefas do dia-a-dia, aquelas de que ninguém fala por serem tão básicas e banais, mas que são tão difíceis de executar com crianças hiperactivas.

Tarefas como vestir, tomar banho, lavar os dentes, calçar, tomar o pequeno-almoço, etc, são batalhas diárias e, para sair delas vitoriosa, tenho que redobrar de paciência, estratagemas e imaginação.

Não falei nos dias de revolta, de desespero, de ansiedade.

Não falei dos dias em que o G. chega a casa com a auto-estima completamente em baixo, nas palavras duras de ouvir para uma mãe, tais como "se calhar sou burro..." ou "mais vale morrer...".

Não falei nos gritos, nos guinchos, nas horas a fio a falar, na falta de silêncio nem que fosse por um só dia...

Mas falei no filho meigo e amoroso que tenho a felicidade de ter e nos momentos de pura ternura que temos juntos.

Foi um evento muito proveitoso com a presença de professores, psicólogos, pediatras, nutricionistas, etc.

Não ouvi nada que já não soubesse mas foi tão bom relembrar e essencialmente confrmar que não estou errada e que sigo pelo caminho certo, embora ainda muito acidentado.

Foi bom verificar que ainda existem muitos professores empenhados em conhecer a problemáticas da PHDA para melhor ajudar e apoiar os seu alunos.

Adorei conhecer a Teresa com quem já partilhava há algum tempo algumas experiências embora sem a conhecer pessoalmente, adorei conhecer a Linda Serrão, presidente e fundadora da Associação Portuguesa da Criança Hiperactiva, ela própria hiperactiva.

Foi bom sentir que não estamos sós, e foi bom para o G. conhecer o Rafa, filho da Teresa, um miúdo da mesma idade e que, como ele, sofre.

Porque um hiperactivo sofre.

Sofre por não saber controlar-se, sofre por ser demasiado impulsivo, sofre por se sentir frequentemente rejeitado, sofre porque sabe que é diferente e é incapaz de controlar essa diferença, porque isso não depende da sua vontade.

Mas ser diferente também é ser especial e ser especial também é bom.

Em suma e para terminar, foi uma experiência fantástica, um refrescar da alma extremamente positivo.

Acredito que não tenha sido uma experiência única, e espero repetí-la em breve.

 

publicado por Abigai às 10:54

Abril 20 2010

Desde tenra infância que o G. apresenta características de hiperactividade. A nossa vida familiar era simplesmente alucinante.

Muito cedo preocupei-me com as suas capacidades de aprendizagem e frequentemente questionava a educadora que sempre procurava de alguma forma apaziguar os meus receios. Um dos aspectos que mais saltava à vista era a incapacidade do G. - ainda no jardim de infância -, de decorar canções infantis, para além de toda a sua instabilidade constante.

Na verdade, e no mais profundo do meu ser, eu tinha a convicção de que o G. sofria de hiperactividade. Comentava isso muitas vezes com o pai mas procurava constantemente alguma desculpa para negá-lo. Contrariamente às muitas mães que encontram no rótulo da hiperactividade uma desculpa para a má-educação, eu procurava justificar a hiperactividade do G. com o meu fracasso como educadora. Era para mim mais fácil encarar a minha imcompetência como mãe do que admitir e enfrentar esta problemática.

O pediatra do G. alertou-me algumas vezes para esta possibilidade e recomendou-me um psicólogo. Hoje sei que esta fase de negação arrastou-se demasiado tempo. Talvez teria evitado algum sofrimento ao G. se tivesse procurado apurar as causas de tanta agitação e oposição mais cedo. Adiei o diagnóstico o mais que pude porque, apesar da minha convicção, era menos penoso sentir culpabilidade.

Foi no final do segundo período do primeiro ano escolar que a professora de então alertou-me para a possibilidade do G. sofrer de hiperactividade. Nesse dia senti um peso enorme, caí em mim e percebi que tinha adiado demasiado o inevitável e com isso prejudicado o bem-estar do meu filho.

Com a cumplicidade da professora - que nos últimos dez anos tinha lecccionado no ensino especial e por isso muito sensibilizada -, colocamos uma câmara oculta na sala de aulas, direccionada para a mesa onde o G. deveria estar sentado.

Quando visionei a filmagem, ri desalmadamente para não chorar: as cenas captadas pela câmara eram hilariantes e incrivelmente preocupantes.

Sabendo eu que para haver um diagnóstico de hiperactividade seria necessário apresentar características em mais do que um contexto, esperava que na escola se comportasse melhor, que obedecesse, que estivesse atento e sossegado, esperava que a sua atitude perante a professora e a turma confirmasse as suspeitas da minha culpabilidade e incompetência como mãe. Ao invés disso, veio confirmar a mais profunda das minhas convicções: a hiperactividade com défice de atenção.

Desde então o caminho tem sido longo e tumultuoso, sem poder agarrar-me à minha culpa o desamparo é grande, com altos e baixos, com muito desespero à mistura, ver o sofrimento do meu filho é frequentemente insuportável.

A medicação é uma forte aliada na batalha que todos os dias travamos, a recusa diária do G. em aceitá-la traduz-se em manhãs stressantes, sufocantes e de profundo desespero.

Quem observar esporadicamente o G. dirá tratar-se de uma criança traquina e provavelmente mal-educada. Raramente comento que é hiperactivo pois a maioria das vezes não acreditam e deixo que pensem o que bem entenderem...

Ser hiperactivo não é apenas apresentar uma actividade física exacerbada.

Ser hiperactivo é um conjunto de factores que condicionam a vida de uma criança e da sua família.

Conviver diariamente com gritos, guinchos, um falar constante, rápido e incompreensível, com a resposta sempre na ponta da língua, com impulsos incontroláveis, com a fome constante, os gritos nocturnos, o choro compulsivo vindo do nada, com o sentimento de perseguição, com a baixa auto-estima e o fracasso, com a ansiedade e os estados de euforia, etc, simplesmente é penoso e difícil.

E não ter a quem atribuir responsabilidades é difícil de aceitar.

E como este post já vai longo, prometo continuar nos próximos dias...

 

publicado por Abigai às 09:22

Março 02 2010

- Mamã... sabes a Beatriz?

- Sei, filho...

- Eu perguntei-lhe se queria namorar comigo...

- Foi? E então?

- Ela disse que sim...

- E depois?

- Depois eu disse-lhe que também queria namorar com ela...

- Então agora são namorados?

- Sim... mas não estamos juntos...

- Não? Como assim?

- Não estamos na mesma carteira na sala.

- Ah... mas estão juntos no recreio, não?

- Não. Eu vou jogar à bola com os meus colegas e ela fica na sala a brincar...

- Mas então quando é que namoram?

- Oh mãe! És mesmo dah!... Nós ainda não temos idade!

 

E toma! Afinal, até tem juizo, o rapaz!

 

publicado por Abigai às 09:54
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Fevereiro 09 2010

Pois bem, é assim que me sinto... aliviada!

Afinal, o fim-de-semana até nem correu muito mal.

Ao que parece, pelo menos foi o que me disseram os pais do coleguinha do G., ele portou-se bem.

Sempre na brincadeira com o amigo, a falar um pouco alto, a querer jogar à bola num apartamento, a acordar muito cedo e querer logo jogar PSP, etc... mas foi acatando ordens.

Parece que a minha esperança - estando numa casa estranha, se comportasse um pouco melhor - foi certeira.

Com o G. não há segredos e logo tratou de contar à mãe do amigo que toma medicação diária e que tem acompanhamento do ensino especial no agrupamento, etc...

Não é que queira fazer disso segredo, só não costumo andar por aí a dizer a todos que tem muitas dificuldades, pois não quero que seja tratado de forma diferente.

E por falar em dificuldades, ontem, hoje e amanhã, são dias de testes. Espero estar enganada, mas parece-me que não está minimamente preparado e que, mais uma vez, vai ser uma desilusão, essencialmente para ele.

Eu já estou conformada, sei que não é um aluno brilhante e a única coisa que exijo dele é empenho, mas por norma, quando chega a casa, tem a sensação de ter conseguido, pensa sempre que lhe correu bem e o teste de ontem não foi excepção.

Foi de Língua Portuguesa e, por ter respondido a quase tudo, sente que correu bem. Ainda não sei a nota, mas pelo que conheço dele e pelo seu historial, trabalhos de casa e fichas, sinto que vai ser mais uma desilusão e receio que comece a desistir.

O acompanhamento ainda não deu frutos, continua com as mesmas dificuldades de compreensão e, se não entende a pergunta, como pode responder correctamente?

Segundo a psicóloga do agrupamento, o G. tem muito potencial - eu própria não tenho qualquer dúvida disso -, mas como mostrá-lo nos testes se não entende o que se pretende dele?

publicado por Abigai às 11:02

Porque foi a primeira palavra do meu filho, e de nada querer dizer, diz-me muito...
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